A TEOLOGIA DE KARL BARTH


Uma teoria, que não nos parece ortodoxa, e que nos últimos anos se insurgiu contra o humanismo contemporâneo, está baseada na teologia de Karl Barth, ou pelo menos nos comentários dos seus discípulos. Não é fácil pronunciarmo-nos definitivamente quanto à doutrina do famoso teólogo, não só porque se trata de uma teologia que ainda não ganhou raízes, mas ainda porque é demasiado cedo para emitir uma opinião verdadeiramente imparcial. Além disso, em muitos aspectos de vital importância, sente-se uma falta de coesão entre os sequazes da doutrina de Barth. Quanto à possibilidade de esta se poder harmonizar com a doutrina tradicional, sem falar na maneira de a apresentar, é assunto que por agora não nos interessa; mas, se a virmos a tomar um rumo diferente da doutrina ortodoxa, convém estudá-la o melhor possível.

Muitos dos aspectos reais ou prováveis que apresentam divergências entre a doutrina de Barth sobre a autoridade da Bíblia e a que foi sugerida pelos Reformadores, têm sido focados por autores ortodoxos, que os comentaram devidamente. Vamos resumi-los, também.

O primeiro refere-se à revelação da Escritura ou à Bíblia como livro. A grande preocupação de Barth consiste em frisar que a Bíblia é um livro humano, como outro qualquer, se considerado apenas na sua forma externa. Daí a falibilidade que podemos admitir nas suas afirmações. Deus não é o Seu autor no sentido de determinar cada uma das suas palavras, frases ou expressões. Daí o admitirmos erros históricos ou científicos. Objetivamente, não é a verdade que a Bíblia nos apresenta, pois não a pode transmitir ao espírito humano fora do ato divino de revelar.

A Bíblia é, na realidade, a única base em que Deus opera na revelação, o que deve ser considerado como um paradoxo da graça. Barth não discute nem desaprova uma Palavra de Deus objetiva, mas tende a desacreditar essa Palavra, vendo nela uma obra humana imperfeita, desproporcionada, paradoxalmente e até talvez arbitrariamente escolhida para a revelação, e não um instrumento preparado expressamente para esse fim.

Deve admitir-se, que já nos nossos dias estas e outras doutrinas têm sido difundidas, quer por causa do receio dum culto da forma externa da Bíblia à custa do conteúdo interno, quer porque muitos liberais julgaram que nestas condições se poderia regressar a uma fé autoritária sem o sacrifício das suas decisões críticas "asseguradas". Se tais considerações são ou não resultado do pensamento real de Barth, é assunto que de momento não nos interessa, e podemos, sem dúvida, segui-lo em muitos outros capítulos sem menosprezar a forma externa da revelação.

O segundo grupo de possíveis erros refere-se ao conteúdo da Bíblia, mas da Bíblia como revelação divina. O primeiro, supõe a Bíblia inspirada, apenas enquanto o Espírito Santo a aplica à alma do crente, iluminando-a. Ora, aqui confunde-se inspiração com iluminação, fazendo supor que a Bíblia é apenas inspirada quando o Espírito Santo através dela se dirige a cada um de nós. A revelação é, pois, uma ação divina, e não um produto da mesma, como revelação que aos homens foi dada. Barth distingue ainda revelação de possibilidade de revelação, e inspiração verbal de possibilidade de inspiração. Ora, só no primeiro caso estaria de acordo com a doutrina dos Reformadores. Admitir-se-iam, no entanto, tais distinções, se supuséssemos que não é possível a Palavra de Deus sem a aplicarmos à alma do crente. Doutro modo é perigoso ir mais além, pois poderia ju1gar-se que a autoridade da Bíblia se baseia no "eu" individual, ou seja, na experiência íntima, e não numa lei externa. Sendo assim, ao insistir-se nos acontecimentos históricos em que se apoia o Cristianismo e ainda na transcendência de Deus, em última análise iríamos só admitir uma fé que depende da experiência subjetiva, e com a autonomia substancial do "eu" do indivíduo. Há ainda o perigo de autênticos paradoxos degenerarem em completos absurdos. Pois não só é um paradoxo supor-se que a verdade eterna é revelada em acontecimentos temporais e em testemunhos através dum livro humano, como é um absurdo dizer-se que a verdade é revelada através daquilo que é errôneo.

As questões levantadas por esta teologia são, sem dúvida, de vital importância no capítulo da autoridade da Sagrada Escritura. São mesmo o ponto culminante do problema. Barth prestou relevantes serviços ao mostrar que são insuficientes as categorias duma ortodoxia morta, em oposição a uma ortodoxia viva. Um objetivismo abstrato ou uma concepção mecânica da revelação estão tão longe da verdade por um lado, como do outro se encontra um subjetivismo puro ou uma teoria naturalista da revelação. É por isso, que o último problema é o da revelação relacionada com a história, por um lado, e por outro, com o crente individual. Poderemos pensar que a Bíblia é fidedigna apenas porque é possível demonstrar a sua fidelidade histórica? Que a autoridade bíblica depende do fato de conhecermos a verdade da sua mensagem através do Espírito Santo? Que não nos será possível procurar a autoridade da Bíblia na relação duma forma perfeita (a Palavra, em sentido objetivo) e dum conteúdo perfeito (a Palavra aplicada subjetivamente pelo Espírito Santo), a forma a sustentar o conteúdo, e o conteúdo não aplicado senão através da forma?