O Número da Besta (13:18)


(Por Michael Wilcock)

Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.
O que significa o número da besta? Uma grande quantidade de tinta já foi gasta com esta fascinante, porém desnorteante, questão. Dizem que o número representa o imperador Nero, ou Calígula, ou Domiciano, ou os Césares em geral, ou o Império Romano, ou qualquer outra das muitas soluções propostas. A maioria dos casos está baseada no fato de que tanto em grego quanto em hebraico, assim como em latim os numerais eram representados pelas letras do alfabeto, sendo que as letras dos vários nomes tinham valores numéricos que, somados, atingiam o total de 666.15 Por exemplo, qsr nrôn (maneira hebraica de so¬letrar "Nero César") pode ser somado da seguinte forma: 100 + 60 + 200 e 50 + 200 + 6 + 50.

Estamos convencidos de que todas estas respostas estão erradas, porque a própria questão está errada. O número não representa nenhuma pessoa em particular, nem tampouco uma instituição; o número representa simplesmente a besta.
Um sem número de comentários dedicados a explicar o significado do número da besta, cheiram a lamparina e poeira de biblioteca. Já havíamos sentido este cheiro em Apocalipse 8:1 -2, onde até a ERAB, de forma confusa, combina os dois versículos em um mesmo parágrafo. O nosso amigo da lamparina senta-se à mesa no seu escritório, magnetizado pela aparência da página impressa onde lê: "Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.

Então vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas". Partindo daí nosso amigo começa a explicar como as trombetas seguem imediatamente o rompimento do sétimo selo, e como talvez até estejam incluídas nos acontecimentos do sétimo selo, e como talvez a meia hora de silêncio pode ser utilizada para que os anjos com as trombetas tomem suas posições, e vai por aí afora. Tivesse nosso amigo tentado ver as coisas como João as viu, ou ouvir a descrição dos fatos como os cristãos das sete igrejas ouviram, o resultado teria sido diferente. Foram abertos seis selos; então, com o sétimo, veio meia hora de intervalo durante a qual João, certamente, deve ter meditado nas coisas que ele havia visto e ouvido até aquele momento.

Não está fora de cogitação que o mesmo tenha acontecido quando a sua carta foi lida em voz alta nas igrejas da Ásia: à medida que o leitor descrevia a abertura do sétimo selo, o silêncio deve ter tomado conta da congregação, que deve ter ficado como que perdida em meio às glórias descritas no capítulo 7. E as trombetas devem ter sido adiadas para o domingo seguinte. Mas o nosso amigo da lamparina segue adiante (apoiado, inexplicavelmente, pela ERAB), bem no momento em que meia hora de meditação silenciosa entre Apocalipse 8:1 e 8:2 teria sido de maior valor, tanto para ele, como para os leitores do seu comentário. Em um momento tentaremos aproximar-nos de Apocalipse 13:18, da mesma forma. Antes de fazer isso, no entanto, gostaria de considerar a frase: "é número de homem" ou "é o número de um homem" (ERC). Paulo usa uma rodada de frases bem semelhantes, diversas vezes,quando ilustra alguma verdade espiritual, utilizando-se, para tanto, de uma analogia tirada da experiência humana. João faz o mesmo com o tempo e com os números.

Um exemplo é a duração da época da igreja. Jesus tinha dito que o espaço de tempo entre a primeira e a segunda vindas era assunto do conhecimento exclusivo de Deus: "Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos nos céus, nem o Filho, senão somente o Pai" (Mt 24:36). Não vos compete saber o tempo ou hora que o Pai reservou para sua exclusiva au¬toridade" (At 1:7). O número real de anos envolvidos é conhecido por Deus, mas não deve ser conhecido pelo homem. De qualquer forma, é dado aos leitores humanos do Apocalipse um número como espécie de código: 31/2 anos = 42 meses = 1.260 dias = a duração da época da igreja.

Pode-se pensar que este era um número "humano" apropriado porque corresponde à duração do ministério do Senhor Jesus Cristo. Se for aceito que pouco mais de três anos transcorreram entre o batismo e a ascensão do Senhor Jesus Cristo, então "três anos e pouco" ou três anos e meio seriam um excelente símbolo para o período entre o batismo da igreja no dia de Pentecostes, e ascensão para encontrar o Senhor quando ele voltar.

Outro exemplo é o número do povo de Deus. O número verdadeiro é segredo divino: Somente "o Senhor conhece os que lhe pertencem" (2 Tm 2:19), e quando João viu a igreja toda, era uma multidão inumerável (Ap 7:9). Mas para a conveniência dos leitores hu¬manos, é dado o número 144.000 como código (7:4).

Um terceiro exemplo pode ser encontrado em 21:17, onde as paredes da cidade celestial medem 144 côvados (provavelmente de largura e não de altura). Isto só pode ser o que o próprio texto diz a respeito, ou seja uma " medida de homem", pois ao contrário da duração da época da igreja e do número total de seus membros, a Jerusalém celestial simplesmente não possui dimensões que possam ser computadas em termos humanos; é dada uma medida humana para que possamos imaginar algo que é absolutamente inimaginável.

É uma maldade realmente tratar a besta e o seu número de qualquer forma diferente. A igreja é representada por figuras (os anciãos, a mulher, as testemunhas) e por um número (144.000). A época da igreja é simbolizada por figuras (a mulher que é preservada, a pregação das testemunhas, as nações ocupando Jerusalém), e por um número (três anos e meio). A falsa religião é simbolizada por uma figura (a besta da terra) e por um número (666). O número 666 não representa Nero, nem Calígula, nem Roma. simplesmente representa a besta, a falsa religião.

E isto é exatamente o que João diz. O nosso amigo da lamparina lê Apocalipse 13:18 de uma só vez — não é um versículo só? — e o interpreta como se fosse uma charada: "Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis!' Nosso amigo aceita que o versículo inteiro seja um quebra-cabeça, onde o nú¬mero 666 é o ponto inicial, e o que é necessário é estabelecer o significado do número 666.

Desta forma ele embarca na solene discussão acerca de Nero e de todo o resto. Mas João não disse: "descubra o significado do número". Ele disse: "calcule o número". A questão levantada por João vai até o ponto do versículo 18 depois das palavras "é número de homem"; o resto do versículo é a resposta. Quebra-cabeça: que tipo de número você acha que pode ser utilizado para representar a falsa religião? Solução: 666.

Vamos então parafrasear o versículo, como deve ter sido lido aos ouvintes originais. "Deixemos que aqueles que têm entendimento estabeleçam o número da besta — um número 'de homem', um código como os utilizados para simbolizar a igreja e a época da igreja.

Que poderemos nós sugerir?" Que tal algo que parece verdadeiro, mas que não é?" "Um número o mais próximo possível da perfeição, mas que não a alcance?" "E se o símbolo da verdade básica é sete, que tal o número 6 para a falsa religião?" "Seria muito apropriado. De fato, porque a besta em todas as suas atividades está constantemente errando o alvo, o número que João escreve aqui não é somente 6, mas 666." Pode não ter sido exatamente desta forma. Mas esta abordagem parece ser mais coerente com o uso que o Apocalipse faz dos símbolos em geral, do que os vôos fantásticos executados pelo nosso amigo da lamparina e da biblioteca empoeirada