Métodos de Exegese



A grande diferença entre os escritores do Novo Testamento e outros intérpretes da Bíblia de seu tempo reside na hermenêutica ou no âmbito de seus pressupostos. Quando se trata de "métodos exegéticos",os escritores do NT valeram-se daqueles que eram conhecidos e praticados no seu tempo . Entre eles, a interpretação literal ou leitura histórica dos textos.

Também elaboraram midrashes, bem ao sabor da exegese judaica. O midrash, que literalmente significa "pesquisa", pois se deriva do verbo hebraico darash, designa uma exegese um tanto quanto expandida de textos ou acontecimentos do AT. Um exemplo clássico é ICo 10. Aqui, Paulo fala da pedra espiritual que seguia o povo de Israel, no deserto. A rigor, a novidade que Paulo traz a essa interpretação é que a pedra era Cristo. No entanto, ao falar da pedra que seguia os israelitas, Paulo incorpora um elemento da exegese mídráshica judaica.Acontece que os rabinos, notando que na Lei existem vários incidentes em que água é tirada de uma pedra ou rocha, passaram a se perguntar se aquela pedra não seria uma só e sempre a mesma. Concluíram, é claro, que se tratava da uma só pedra, ambulante, por assim dizer. Este detalhe não consta do texto do AT, mas Paulo assume esta exegese expandida. Outro exemplo é 2Co 3.4-18, um texto em que Paulo faz uma releitura de um acontecimento da vida de Moisés, relatado unicamente em Êx 34.

Outro método exegético é conhecido como exegese pésher, um termo que quer dizer "interpretação". É o método do "isto é aquilo" ou "isto cumpre tal passagem". Quando Paulo diz, em ICo 10.4, que a pedra era Cristo, está, a rigor, fazendo exegese tipo pésher. No entanto, mais comum é dizer "isto se refere a isto ou a estes", como tão bem ilustra o comentário a Habacuque, descoberto entre os textos de Qumran . At 2.16, "o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel", é um exemplo de exegese do tipo pésher. Em At 4.11, a citação de Si 118.22, na forma de "Este Jesus é a pedra rejeitada por vós, os construtores", também revela uma exegese desse tipo.

Existe também um exemplo de exegese alegórica no NT, a saber, Gl 4.24: "Estas coisas são alegóricas". No entanto, essa interpretação paulina está mais para tipologia, ou, então, theoria, como era chamada pelos teólogos da escola de Antioquia, do que propriamente alegoria. Acontece que Paulo não nega o caráter histórico das duas mulheres. Sara e Agar. Uma alegoria no sentido estrito do termo eliminaria o sentido histórico.

Paulo como intérprete

No NT, Paulo é um capítulo à parte quando se trata de citar e interpretar o AT Ele tem sido objeto de livros e mais livros. Tudo porque Paulo não segue um padrão único. Ele cita o AT umas 107 vezes. Destas, 42 citações seguem o texto hebraico e o texto grego da LXX, ou seja, há concordância entre Paulo, a Septuaginta e o texto original hebraico. Sete vezes Paulo segue o texto hebraico, divergindo da LXX. Em 17 ocasiões ele faz o contrário: segue a LXX, divergindo do texto hebraico. E em 31 casos ele diverge tanto da LXX quanto do texto hebraico, fazendo, ao que tudo indica, uma tradução pessoal!
Paulo foi treinado aos pés do rabino Gamaliel, em Jerusalém (At 22.3). Gamaliel era representante da escola de Hillel, mais aberta e "liberal" do que a escola de Shammai. No contexto do judaísmo do primeiro século, são famosas as sete regras hermenêuticas de Hillel. Paulo parece conhecer e praticar ao menos dois desses princípios: Kal wahomer e Geserah schawah.

Kal wahomer é, a rigor, um argumento do menor para o maior (a minore ad majus), ou, inversamente, do maior para o menor. A interpretação tipológica opera com esse princípio, como se pode ver em Rm 5.9,10,15,17 e em 2Co 3.7. O exemplo clássico de um argumento do menor para o maior é ICo 9.9, onde Paulo aplica a seu
apostolado um direito que a Lei assegura ao boi que pisa o trigo: se vale para o boi, vale também para o apóstolo!

Quanto a geserah schawah, trata-se do princípio da analogia. Em outras palavras, dois (ou mais) textos que tratam do mesmo assunto ou têm palavras em comum podem ser usados para estabelecer um argumento. O exemplo clássico é Rm 4.3-8, onde Paulo pode citar Gn 15.6 e Sl 32.1-2 em nome do princípio da analogia, ou seja, à luz do fato de que ambos os textos têm em comum o verbo "imputar".