A linguagem Mítica


É sabido que desde os primeiros registros da civilização no mundo. A humanidade tem se servido da linguagem mítica para dar significado e explicar a realidade em que estavam imersos (Fenômenos da natureza e da vida). Com ela o homem passa dar um sentido empoderativo, sobrenatural a tudo que vai além da sua capacidade elucidativa. O mito nesse caso é fruto da necessidade que o homem tem de dar explicação a tudo. Mesmo que essa explicação não equivalha à realidade das coisas. O mito então seria uma alternativa de compreensão daquilo que não podia ser explicado. Aristóteles, no início da Metafísica, afirma; ”Por natureza, todos os homens desejam o conhecimento”. Desde os tempos remotos, conhecer e explicar o mundo sempre foi a mais laboriosa tarefa humana. E neste labor, diga-se de passagem, ninguém conseguiu até hoje superar os gregos. Embora ao falarmos de “Mito” temos sempre em mente A Grécia, isso não quer dizer que este tipo de linguagem só ocorresse ali. Todas as civilizações do mundo sempre recorreram ao mito no intuito de buscar respostas ou explicar algum evento. Mas neste preâmbulo em especial ao falarmos de “mito” usaremos sempre como referência os gregos. A palavra mito vem do grego mythos e quer dizer: “fala, conversação, discurso”. Para os gregos o mito era um discurso proferido (geralmente os encarregados destes discursos eram os aedos e rapsodos cantores ambulantes) para ouvintes que recebem como verdadeira a narrativa, porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em público, baseada, portanto, na confiabilidade e na autoridade da pessoa do narrador. E essa autoridade vem do fato de que ele testemunhou diretamente o que está narrando ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentos narrados.
Os mitos gregos são marcadamente antropomórficos, isto é, concebidos com características semelhantes ao mundo, relações e formas de vida dos homens daquele tempo. Houve entre os gregos uma intensa tradição mitológica oral que mais tarde foi sistematizada por Homero em duas grandes obras: Ilíada e Odisséia. Esse saber mitológico, portanto, teve a função de explicar para a época e para aquele momento histórico as principais questões da existência humana.

Nem lenda nem fábula: Organização da Realidade.

O antropólogo Claude Lévi-Strauss via na linguagem mítica mais do que simples construções fabulares ou lendárias.Para ele o mito tinha a função de organizar a realidade a partir da experiência sensível enquanto tal.Para explicar a composição de um mito, Levi-Strauss se refere a uma atividade que existe em nossa sociedade e que, em francês , se chama bricolege.Que é a produção de um objeto a partir de pedaços e fragmentos de outros objetos.O pensamento mítico diz Levi-Strauss faz a mesma coisa, isto é, vai reunindo as experiências, as narrativas, os relatos, até compor um mito geral. Com esses matérias heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas, suas funções e suas finalidades, os poderes divinos sobre a Natureza e sobre os homens.O mito possui ,assim, três características principais:

1-Explicativa. O presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo. Por exemplo, uma constelação existe porque, no passado, crianças fugitivas e famintas morreram na floresta e foram levadas ao céu por uma deusa que as transformou em estrelas; as chuvas existem porque,nos tempos passados,uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendo unir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza,fazendo suas lágrimas caírem sobre o mundo;etc.

2-Organizativa. O mito organiza as relações sociais (de parentesco, de aliança, de trocas, de sexo, de idade, de poder, etc.) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões.

3-Compensatória. O mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os homens de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária.



Surge então o Logos...

Embora o mito tivesse e ainda tenha a função de sensibilizar estruturas profundas, inconscientes do psiquismo humano. Como exemplo aqui podemos citar o mito de Édipo, que serviu à psicanálise, para demonstrar que existem certas estruturas mentais pelas quais todos os seres humanos passam. Suas explicações oriundas das narrativas orais vão perdendo, à medida que o homem estrutura o pensamento racional, seu poder explicativo. Como os mitos procuravam explicar fenômenos matérias buscando causas imaterias, os primeiros filósofos começaram a buscar outras explicações. O Logos, que significa saber racional, surge como uma opção aos mitos. À medida que a humanidade foi progredindo houve a necessidade de uma explicação mais consistente sobre os fatos que cercam a existência do homem aqui na terra. O mito não é mais o fundamento em que se estabelecer a verdade. Está o mito morto enquanto linguagem? Na verdade não. Embora não seja possível assumir como verdade o que a linguagem mítica diz, há em nós uma estrutura ainda que inconsciente onde o dialogo mítico nunca morre.