Justificação pela Graça


(Rm 5.12-21)

O apóstolo conclui esta seção, da justiça do crente, frisando que é na verdade uma posição na graça, visto que é realizada mediante a graça (vers. 15-20). O canal da justificação é por meio de uma Pessoa pelo dom gratuito de Deus, princípio este que leva Paulo a discutir os dois cabeças da raça humana, Adão e Cristo (cfr. 1Co 15.21 e segs.). Note-se a construção da passagem. Depois de declarar a verdade da universalidade do pecado e sua penalidade mediante Adão (12), o apóstolo faz uma digressão em parêntese (13-17), e volta ao seu argumento nos vers. 18-19. Temos no vers. 12 um anacoluto gramatical. Não há oração correlativa para a cláusula que começa "assim como", a qual descreve Adão como tipo dAquele que teria de vir. Essa locução conjuntiva "assim como" não encontra sua correlativa senão no vers. 18, depois de fechado o parêntese que tratou de algumas dificuldades.

A passagem decisiva é o vers. 12, onde e apresentada a doutrina da relação de um para com muitos. Ênfase especial é dada às duas preposições usadas no grego, dia, "através de", e eis, "para dentro", pelas quais se indicam um canal e uma passagem. Por um homem, como canal, o pecado entrou no mundo (kosmos) e, pelo pecado, a morte, como penalidade. O mundo até então fora declarado "muito bom" pelo Criador, mas agora, pela transgressão de Adão, o pecado e a morte entraram nele. O ponto a que Paulo quer chegar é que todos estão envolvidos no pecado de Adão, todos pecaram nele e com ele. A humanidade não é considerada apenas como havendo pecado e sido debitada legalmente pela transgressão de Adão, porém todos são declarados como havendo real e ativamente pecado juntamente com Adão.

Esta declaração dogmática leva o apóstolo a um parêntese, onde ele enfrenta duas dificuldades. A primeira é que até ao tempo de Moisés a lei não houvera sido declarada. Como não havia lei, não podia haver pecado. O apóstolo aceita o argumento, admitindo que o pecado não elevado em conta quando não há lei (13); isto é, não é considerado como culpa, envolvendo penalidade. Em segundo lugar, ele argumenta que, houvesse ou não houvesse lei, a penalidade de Adão veio operando desde o tempo deste. Ninguém podia negar a universalidade da morte, e Paulo endossa a doutrina de que a morte e a sentença de Deus sobre o pecado, embora não houvesse lei até ao tempo de Moisés, e se bem que os que assim sofriam essa pena não houvessem transgredido à semelhança do pecado de Adão, isto é, comendo o fruto proibido (14). Comentando este vers. 14, alguns argumentam a favor da universalidade do pecado, porém não de sua originalidade. Isto seria negar nossa unidade em Adão, a qual é tipo da unidade dos remidos em Cristo.

Até aqui Paulo está traçando uma comparação entre Adão e Cristo. Ambos, por um simples ato, influenciaram a raça inteira. Agora segue-se o contraste. O efeito do pecado de Adão é a morte; o efeito da justiça de Cristo é a vida. Paulo, porém, não o formula nestes termos. Declara que o resultado é graça abundante ou transbordante, ou seja o dom pela graça (15), que adiante é definido, no vers. 17, como o dom da justiça. A sentença era de um para a condenação de todos; o dom gratuito era de muitas transgressões para um pronunciamento de justificação (16). O grego dikaioma, não o costumeiro dikaiosis, traduzido simplesmente justificação, significa uma sentença judicial, ou decreto, ou ato de justificação, ou ajustamento de relações com Deus. A mesma palavra grega ocorre em Rm 1.32-2.26; Rm 8.4, a qual a ARA traduz por "sentença" ou "preceito". O contraste entre Adão e Cristo é ainda desenvolvido no vers. 17, onde um estabelece o reinado de pecado e morte, e o outro o reinado de graça e vida. A união com Cristo anula eternamente a união pecaminosa com Adão.

Paulo agora retoma o princípio declarado no vers. 12, reafirmando-o e adicionando a outra cláusula do paralelismo, assim também pela justiça de um veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (18). A ofensa de um... a justiça de um (18). A diferença é entre agente e ato.