Falsos Mestres


(2Pe 2.1-22)

Em volta deste capítulo tem-se travado a controvérsia denominada de Pedro-Judas. A semelhança entre os dois documentos é muitíssimo impressionante, cfr. especialmente 2Pe 2.2,4,6,11,17; Jd 4-18. Sugere-se que os erros denunciados por ambos os escritores tiveram sua origem em Corinto; que a desordem se espalhava; que Pedro se alarmou e escreveu sua segunda epístola, mandando uma cópia a Judas com o aviso de que o perigo urgia; e que Judas imediatamente despachou uma carta idêntica às igrejas nas quais estava interessado pessoalmente.

a) Sinais dos falsos mestres (2Pe 2.1-3)

Começa este capítulo lembrando que na história de Israel muitos falsos mestres surgiram; cfr. 1Rs 22; Jr 23; Ez 13; Zc 13.4, etc. Nosso Senhor também advertiu contra falsos mestres; cfr. Mt 7.15; Mt 24.11 e segs. Pedro confirma agora tais advertências. Da parte final deste capítulo colhe-se que esses falsos mestres já haviam aparecido e estavam agindo na Igreja (vejam-se os vers. 9-19). A palavra encobertamente faz supor a presença de espião ou traidor. Cfr. Gl 2.4 onde o grego pareisaktos se traduz na RV por "entremeteram-se secretamente". No mesmo verso pareiserchomai se traduz por "penetraram ocultamente". Em ambos os casos alude-se aos judaizantes introduzidos pelo partido da circuncisão, para subverterem a fé, cfr. também Jd 4 onde pareisiduo sê traduz por "introduziram-se dissimuladamente". O sinal característico de tais falsos mestres é introduzirem heresias destruidoras (1); "seitas de perdição". O termo grego hairesis indica primeiramente "escolha"; daí aquilo que se escolhe, donde opinião, especialmente uma opinião obstinada, que conduz a divisão e a formação de seitas (cfr. At 24.5). No Novo Testamento o termo "heresia" não implica opinião errônea somente, mas a adoção de falsos padrões de conduta. Uma heresia sempre é uma negação da obra e da autoridade de Cristo. O Senhor que os resgatou (gr. despotes) implica absoluto senhorio e domínio, pensamento este que o apóstolo frisa quando alude a "compra" ou resgate, tal como um senhor que compra um escravo (cfr. 1Pe 1.18; 1Co 6.20; 1Co 7.23). Note-se que Pedro não alimenta dúvida quanto ao resultado de tal procedimento.

Do resto desta epístola vê-se que a heresia em causa era o antigo antinomianismo, isto é, a doutrina de que sob a dispensação do evangelho a lei moral não mais obriga, visto como para a salvação é bastante a fé. O caminho da verdade será desacreditado aos olhos do mundo por causa da frouxidão moral permitida, pregada e praticada pelos falsos mestres e por aqueles que lhes caíram nas malhas, à força de suas palavras fictícias (3), gr. plastois, "moldados" (cfr. "plástico"), e pela cobiça (avareza) deles, ou ambição de lucro, com que exploravam os incautos. Sua condenação, porém, era certa. O juízo não tarda (3); sua destruição não dorme, esperando a hora aprazada.

Confirma-se isto com três ilustrações tiradas do Velho Testamento.

2Pe-2.4:

b) A certeza do juízo (2Pe 2.4-9)

1. A QUEDA DOS ANJOS (2Pe 2.4) -Se Deus não poupou os anjos que pecaram. Vejam-se as notas sobre Jd 6-8. Não há no Velho Testamento referência especifica a uma queda de anjos, a não ser que Gn 6.1-4 se interprete neste sentido. Há contudo freqüentes alusões no livro de Enoque a tal queda, e descrições de sua natureza. Pode ser que tais alusões se derivem de uma interpretação da passagem do Gênesis, segundo a qual "os filhos de Deus" são anjos. Plummer sugere que os falsos mestres podiam ter feito uso desse livro de Enoque na doutrinação perversa que empreendiam, e que Pedro introduz aqui a referência como uma espécie de argumentum ad hominem contra eles. Então Judas, reconhecendo a alusão, perfilhou-a e esclareceu-a ainda mais. Precipitou-os no inferno; gr. tartarosas. "Tártaro" era o nome dado ao mais profundo abismo do mundo inferior, e era considerado como muito mais abaixo do Hades, apesar de algumas vezes o termo ter sido usado como sinônimo dele. Entregou-os às cadeias da escuridão (4). Certas autoridades oscilam de opinião entre esta tradução e a da ARA, "abismos de trevas"; isto é, sobre os termos gregos seirais e seirois. Provavelmente o termo "abismos" condiz mais com a idéia de Tártaro, que vem imediatamente antes. Em qualquer caso o sentido é óbvio. Reservando-os para juízo. No livro apocalíptico de Enoque 6-19, vem uma narrativa acerca dos anjos caídos e a relação dele, Enoque, para com tais anjos. As trevas foram-lhe mostradas e lá ele viu "os prisioneiros (os anjos) pendurados, reservados para o juízo eterno, e o aguardando".

2Pe-2.5

2. O DILÚVIO (2Pe 2.5) -Noé chama-se aí pregador da justiça. No Gênesis declara-se explicitamente que "Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus" (Gn 6.9). Noé a oitava pessoa. É idiotismo grego equivalente a "Noé e mais sete pessoas" (veja-se a ARA).

2Pe-2.6

3. A SUBVERSÃO DE SODOMA E GOMORRA (2Pe 2.6-9) -Note-se o paralelismo com Lc 17.26-29; veja-se Jd 7. Nenhuma referência Judas faz ao livramento de Ló. É significativo o que Pedro diz deste. Tão justo era que sua alma se afligia diariamente com a vida dissoluta dos insubordinados que o cercavam (7). O vers. 9 é a apódose, ou segunda parte da sentença condicional, da qual os vers. 4-8 são a prótase, ou primeira parte. A sentença portanto é: "Ora, se Deus não poupou anjos... e não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé... e reduziu a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra... e livrou o justo Ló... (então) o Senhor sabe livrar da provação os piedosos. Ele também sabe "reservar, sob castigo, os injustos" agora; não é apenas referência a castigo em alguma era futura. O verbo está na voz passiva, lit. "sendo castigados". Para o dia de juízo; cfr. a expressão vétero-testamentária "dia de Jeová", o tempo em que Deus Se manifesta para vindicar a justiça. No Novo Testamento a expressão está associada à segunda vinda de Cristo para julgar o mundo. "Os ímpios já sofrem as conseqüências do seu pecado, mas a justa medida do seu castigo ser-lhes-á infligida logo mais" (Cent. Bible).