A ESCATOLOGIA E O ESPÍRITO SANTO


(Anthony Hoekema)

O papel desempenhado pelo Espírito santo na escatologia nem sempre foi completamente analisado. Em 1912, Geerhardus Vos atraiu a atenção do mundo erudito para este papel no artigo intitulado: The Eschatological Aspect of the Pauline Conception of the Spirit” (O Aspecto Escatológico da Concepção Paulina do Espírito). Mais recentemente, Neil Q. Hamilton escreveu um monografia sobre o assunto intitulada The Holy Spirit and Eschatology in Paul (O Espírito Santo e a Escatologia em Paulo) . Ambos os autores indicam que a obra do Espírito Santo é de significação decisiva para a escatologia.
De acordo com o testemunho bíblico, os crente já estão na nova era predita pelos profetas do Antigo Testamento, e já estão desfrutando dos privilégios e bênçãos dessa era. Também observamos, entretanto, que os crentes experimentaram estas bênçãos escatológicas de maneira apenas provisória e aguardam por uma consumação futura do Reino de Deus, no qual deverão desfrutar plenamente dessas bênçãos. O papel que o Espírito desempenha na escatologia ilustra mais esta tensão entre o que nós já temos e o que ainda esperamos.
Vejamos agora, primeiramente, o papel do Espírito na escatologia em geral. No Antigo Testamento, o Espírito está relacionado com a escatologia de pelo menos três modos:

(1) É dito que o Espírito Santo preparará o caminho para irrupção da era escatológica final através de certos sinais proféticos. Assim, por exemplo, o profeta Joel prediz o derramamento do Espírito que ocorrerá num tempo que ele designa simplesmente como “depois (acharey khen), mas que Pedro, em sua citação desta passagem no dia de Pentecostes, denomina “nos últimos dias” (en tais eschatais hemerais, At 2.17). O sentido imputado a este derramamento do Espírito por Pedro, em Atos 2.17-36, indica que ele foi um dos eventos excepcionais que marcaram a vinda dos últimos dias.

(2) É dito que o Espírito será Aquele que repousará sobre o Redentor vindouro e o equipará com os dons necessários. Observe, por exemplo, Isaías 11.1-2.
“Do tronco de Jessé sairá um rebento.
E das suas raízes um renovo.
Repousará sobre ele o Espírito do Senhor,
O Espírito de sabedoria e de entendimento,
O Espírito de conselho e de fortaleza,
O Espírito de conhecimento e de temor do Senhor”.

Em outra passagem, o profeta, numa antecipação, coloca as seguintes palavras na boca do Messias vindouro:
“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu,
para pregar boas novas aos quebrantados,
enviou-me a curar os quebrantados de coração,
a proclamar libertação aos cativos,
e pôr em liberdade os algemados;
e apregoar o ano aceitável do Senhor
e o dia da vingança do nosso Deus;
a consolar todos os que choram” (Isaías 61.1-2; cp. 42.1).

Poder-se-ía deduzir destas passagens que o Espírito Santo estará permanente e significativamente ativo na vida do Messias. A atividade do Espírito no e através do Messias será, por causa disso, uma característica especial da nova era predita pelos profetas.

(3) O Espírito aparece como a fonte da futura nova vida de Israel, incluindo tanto bênçãos materiais como renovação ética. Assim, por exemplo, lemos em Isaías 44.2-4:

“Não temas, ó Jacó, servo meu, ó amado a quem escolhi.
Porque derramarei água sobre o sedento,
e torrentes sobre a terra seca;
derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade,
e a minha bênção sobre os teus descendentes;
e brotarão como a erva,
como salgueiros junto às correntes das águas”(cp. também Isaías 32.15-17).

Passagens similares podem ser encontradas em Ezequiel 37.14 e 39.29. Ezequiel não fala só de bênçãos nacionais; ele também prediz a renovação de membros individuais da nação: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro em vós o meu espírito [o Espírito, ASV], e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.25-27).

Nos Evangelhos, ouvimos Jesus referir-se ao Espírito de modo a cumprir a profecia do Antigo Testamento. Assim, por exemplo, em Lucas 4.17-19, Jesus é referido mencionando a passagem de Isaías 61, à qual acabamos de aludir, e aplicando-a a si mesmo: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.21). aqui Cristo reinvindica ser o Messias sobre quem o Espírito do Senhor repousa, em cumprimento à profecia de Isaías. Em Mateus 12.28, mais adiante, Jesus faz alusão ao fato de ele expulsar demônios pelo Espírito de Deus como prova de que o Reino de Deus chegou aos seus ouvintes. Aqui, o modo pelo qual o Espírito reveste Cristo de poder está citado como evidência da chegada da nova era.

Embora os textos que acabamos de citar descrevam o Espírito repousando sobre Jesus e revestindo-o de poder, há quatro passagens nos Evangelhos que indicam Jesus, diferentemente de João Batista, que batizava apenas com água, batizará com o Espírito Santo (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33). Estas palavras implicam em que Cristo tem o poder para conceder o Espírito Santo a seu povo. Em Atos 1.6, Jesus esclarece que a expressão “ser batizado com o Espírito” refere-se a um evento que está para ocorrer: “Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias”. Este evento, como fica óbvio em Atos 2, foi o derramamento do Espírito Santo que aconteceu no dia de Pentecostes - um evento que teve grande significação escatológica .

O livro de Atos descreve o derramamento do Espírito no Capítulo 2. Em seu discurso no dia de Pentecostes, Pedro cita a profecia de Joel à qual nos referimos anteriormente, indicando que esta profecia foi agora cumprida e que, portanto, os “últimos dias” foram agora instaurados (Atos 2.16-17). Disto fica claro que a “nova era” escatológica deve ser marcada pela presença do Espírito na Igreja, em toda a sua plenitude.
Paulo vê o Espírito principalmente como o dom escatológico, o revelador da nova era, de acordo com a profecia do Antigo Testamento . Em Colossensses 1.13 Paulo diz que Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor”. Hermann Ridderbos vincula declarações desse tipo com a obra do Espírito Santo, e conclui que, segundo Paulo, o Espírito nos introduz em um novo modo de existência:
“...’Carne’ e ‘Espírito’ representam dois modos de existência; por um lado, o da velha era que é caracterizada e determinada pela carne e, pelo outro lado o da nova criação que é o Espírito de Deus... por esta razão a igreja não está mais ‘na carne’, i.e., sujeita ao regime da primeira era e dos poderes malignos que nela reinam, mas está ‘no Espírito’, trazida para sob o domínio da liberdade em Cristo (Rm 8.2 ss, 9, 13; 2 Cl 3.6; Gl 3.21). Todas as facetas do contraste entre carne e Espírito... ficam transparentes e notáveis a partir desta estrutura escatológica básica da pregação de Paulo e constitui um elemento altamente importante dela” .

Geerhardus Vos sustenta que o que é único acerca de Paulo é seu entendimento da universalidade da obra do Espírito. O Espírito não somente vive agora em todos os crentes, como também opera em todos os aspectos de sua vida religiosa e ética . Considerando a ligação entre o Espírito e a escatologia para Paulo, Vos tem isto a dizer: “...o ‘pneuma’ [Espírito] era, na mente do apóstolo, antes de tudo, o elemento da esfera escatológica ou celestial que caracteriza o modo de vida e existência no mundo porvir e, consequentemente, daquele forma antecipada na qual o mundo por vir é mesmo agora realizado...” .
Uma outra forma de se abordar isto é dizer que, para Paulo, o Espírito significa o irromper do futuro no presente, de forma que os poderes, privilégios e bênçãos, da era futura estão desde já disponíveis para nós através do Espírito: “... o Espírito, pertence primeiramente, ao futuro no sentido de que o que nós testemunhamos no Espírito, da ação pós ressurreição, pode ser entendido somente quando visto como uma irrupção do futuro no presente. Em outras palavras, baseado na obra de Cristo, o poder do futuro redimido foi liberado para agir no presente na pessoa do Espírito Santo”.

Por causa disso, para Paulo, o recebimento do Espírito significa que nós podemos nos tornar participantes do novo modo de existência associado à era futura, e agora tomar parte nos “poderes da era por vir”. Desta forma, Paulo insistiria em que o Espírito dá é somente uma prova antecipada das bênçãos muito maiores que hão de vir. É por esta razão que ele chama o Espírito de: “primícias” e “garantia” das bênçãos futuras, que deverão ultrapassar, em muito, as da vida presente. Por causa disso, poderíamos dizer que, para Paulo, a era do Espírito (do Pentecostes até a Parousia) é um tipo de era provisória. Durante essa era, os crentes já têm as bênçãos da era futura mas “ainda-não” as têm em sua plenitude.

Prosseguindo, passemos a examinar o papel escatológico do Espírito em conexão com certos conceitos bíblicos específicos. Comecemos com o papel que o Espírito Santo desempenha em relação à nossa filiação. Paulo baseia a filiação dos crentes na obra de Cristo, mas a relaciona muito intimamente com a obra do Espírito Santo. Aprendemos de Gálatas (4.4-5) que Deus enviou seu Filho para que nós pudéssemos ser adotados como filhos. A palavra grega huiothesia, usada aqui, se refere aos direitos legais envolvidos na filiação; a New International Version (Nova Versão Internacional) de fato, refere-se ao termo, definindo-o como “os direitos plenos de filhos”. Paulo agora segue adiante no verso 6: “E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” O papel do Espírito é descrito aqui como aquele que testifica a filiação dos crentes, clamando: “Aba! Pai!” em seus corações - isto é, para dar aos crentes a certeza de que eles são filhos de Deus e de que Deus é, de fato, seu Pai e de que eles são, de fato, seus filhos. Outra passagem principal onde Paulo descreve a filiação dos crentes, é Romanos 8.14-16. No verso 14, ele diz que todos aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Então, como evidência dessa declaração, Paulo prossegue dizendo, no verso 15: “Porque não recebestes o Espírito de escravidão para virdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção (pneuma huiothesias)”. A questão aqui é se deveríamos entender espírito de adoção como se referindo a um certo espírito ou ao Espírito Santo. Uma porção de versões usam a letra maiúscula na palavra Espírito nesta última expressão ao passo que mantêm espírito com inicial minúscula na frase anterior (KJNEB, NIV). Provavelmente, será mais satisfatório considerar a última expressão como descrevendo o Espírito Santo aqui (Espírito de adoção) uma vez que o Espírito Santo está associado com nossa adoção e a confirma. O Espírito Santo, então, nesta passagem, se torna distinto do espírito ou atitude mental associada ao estado de escravidão do qual os leitores da epístola tinham acabado de ser libertos.

Quando Paulo continua dizendo: “baseados no qual clamamos: Aba, Pai!” (v.15), ele repete virtualmente o que tinha dito em Gálatas 4.6, exceto que neste último texto ele afirma claramente que são crentes os que clamam “Pai”, pois são levados a fazê-lo pelo Espírito que neles habita. Este pensamento é continuado no verso 16: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. Novamente, o papel do Espírito é descrito aqui como aquele que testifica ou dá testemunho junto ao espírito dos crentes de que eles são realmente filhos de Deus. O tempo presente do verbo symmartyrei implica que este testemunho do Espírito não é dado apenas em determinadas ocasiões dramáticas ou espetaculares, mas que continua ao longo da vida.

Paulo, agora, indica que a adoção assegurada pelo Espírito aos crentes tem dimensões escatológicas. Porque, no verso 19, ele afirma que a criação inteira aguarda, em ardente expectativa, pela revelação dos filhos de Deus. Estas palavras implicam em que os filhos de Deus ainda não provaram a plenitude das bênçãos e privilégios que sua filiação inclui. O que está implicado no verso 19 é colocado explicitamente no verso 23: “E não somente a criação, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo aguardando a adoção de filhos (huiothesian), a redenção do nosso corpo (tem aplytrosin tou somatos hemon)”. A palavra apolytrosis, redenção, significava originalmente a recompra de um escravo ou cativo, tornando-o livre pelo pagamento de um resgate (lytron) . Quando aplicado ao corpo, como aqui, a palavra refere-se obviamente à libertação do corpo das limitações terrenas que ocorre na ressurreição. Portanto, a “adoção de filhos” (huiothesia) descrita neste verso é algo ainda futuro, que nós ainda aguardamos ansiosamente. O Espírito, portanto, testifica nossa adoção, assegurando-nos a posse de algo que nós temos, mas ainda não desfrutamos plenamente. Nós temos os direitos plenos associados com a adoção, mas nós realmente não possuímos ainda tudo o que nossa adoção envolve.

A “Huiothesia” completa é ainda objeto de esperança” Ou, como Hamilton o diz: “Esta redenção futura do corpo é o ainda-não-cumprido, é o aspecto futuro da adoção que o Espírito cumprirá. Que esta é uma função do Espírito fica claro no verso 11. Assim, no caso de adoção, a ação do Espírito presente é apenas preliminar. A obra propriamente completa do Espírito está no futuro” .

Em conexão com nossa filiação, podemos também notar o que Paulo diz acerca de sermos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17; Gl 4.7). A herança que haveremos de receber, que poderia ser considerada como o complemento de nossa adoção, é descrita em outros lugares, em termos que se referem claramente ao futuro: 1 Co 6.9; Gl 5.21; Ef 1.14 e 18; Cl 3.24 e Tt 3.7. Embora possamos admitir que ser filho envolve ser herdeiro, o que está incluso na herança é, certamente, ainda objeto de esperança.

Concluímos que o papel do Espírito, em conexão com nossa adoção, é de assegurar-nos de que, realmente, somos filhos de Deus em Cristo e herdeiros de Deus com Cristo, mas, ao mesmo tempo, devemos lembrar-nos de que a riqueza plena desta filiação só será revelada na Parousia. Mas uma vez ficamos apercebidos da tensão que existe entre o já e o ainda não que caracteriza esta era. Embora o Apóstolo João não conecte nossa adoção especialmente com a obra do Espírito Santo, nas seguintes palavras, ele de fato descreve nossa filiação tanto em termos do que já temos como do que ainda esperamos: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ao ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus... Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3.1,2).

Um outro conceito bíblico que nos ajuda a compreender o papel escatológico do Espírito é o das primícias (aparche). Esta palavra é aplicada a Cristo em 1 Co 15.20 e 23 (“as primícias dos que dormem”). Existe, entretanto, uma passagem na qual esta palavra é aplicada ao Espírito Santo: Rm 8.23, que foi citada acima: “E não somente a criação, mas também nós que temos as primícias do Espírito (ten aparchen tou pneumatos), gememos igualmente em nosso íntimos, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”.

O que significa o termo “primícias”? A palavra era usada no Antigo Testamento para descrever os primeiros frutos do ou dos rebanhos, que eram oferecidos a Deus (Dt 18.4; 26.2; Nm 10.35-37). As primícias, portanto, representam o início da colheita. Em Rm 8.23, o Espírito Santo é denominado de primícias. Aqui o Espírito é descrito como o início de uma colheita somente neste caso é Deus, e não o adorador, quem dá as primícias. G.Delling o pondera bem: “Em Rm 8.23, a relação de doador e recipiente está invertida e “aparche” são as primícias de Deus para o homem (cp.2 Co 5.5). O dom do pneuma é apenas provisório. É apenas o princípio, que será ulteriormente seguido por huiothesia, pelo dom do soma pneumatikon”.

Assim como nos tempos do Antigo Testamento as primícias eram o início de uma colheita muito maior que estava ainda por vir, assim o recebimento do Espírito Santo pelo crente, é o precursor de coisas melhores que hão de vir. Agora, nós temos o Espírito; após a Parousia, deveremos ter a colheita inteira que inclui a ressurreição do corpo. Por causa disso, gememos em nosso íntimo, porque temos apenas o início da colheita. Mas a posse presente do Espírito, como primícias, nos dá a certeza de que um dia deveremos colher toda a ceifa.

Um conceito bíblico relacionado com este é o do Espírito como nosso penhor de bênçãos futuras. A palavra grega traduzida como penhor, na Versão Revista e Atualizada no Brasil, é arrabon, e é aplicada ao Espírito em três passagens: 2 Co 1.22; 5.5 e Ef 1.14. Arrabon é um termo semita emprestado, transliteração grega de uma palavra hebraica. Significa “um ‘penhor’ que mais tarde é devolvido (apenas Gl 38.17-20); um ‘depósito’ que paga parte da dívida total e dá um direito legal...; ‘sinal em dinheiro’ que ratifica um acordo...” . Talvez, alguém poderia sugerir a palavra “sinal” ou “primeira prestação”, se não fosse o fato de que no mundo de hoje, um sinal não garante o pagamento da dívida toda. Eis porque a palavra arrabon pode ser melhor traduzida por penhor ou garantia.

Em 2 Co 1.22, Paulo nos conta que o Espírito foi-nos dado como uma garantia de que todas as promessas de Deus, que têm o sim e o amém em Cristo, serão cumpridas. Aprendemos de 2 Co 5 que o Espírito é a garantia de que um dia entraremos em um modo celestial de existência, descrito no verso 1 como “da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” . E em Ef 1.14, somos ensinados que o Espírito é o penhor de nossa esperança - a herança da glória futura. Em todas estas três passagens o Espírito Santo é descrito como um “depósito que garante” bênçãos futuras e o cumprimento de promessas divinas.

A palavra arrabon, como aplicada ao Espírito, portanto, enfatiza especialmente o papel do Espírito na escatologia. Ela indica que o Espírito, que agora os crentes possuem é a garantia e penhor do complemento futuro de sua salvação no eschaton. Enquanto que a designação do Espírito, como primícias, indica a natureza provisória do gozo espiritual presente, a descrição do Espírito como nossa garantia implica a certeza do cumprimento derradeiro. A importância do conceito a respeito do Espírito como arrabon está mais desenvolvida nas seguintes observações:

“Paulo chama a atenção especial para o fato de que o Espírito apresenta parte do futuro que agora se tornou presente, quando ele o designa como “primeiros-frutos” (aparche Rm 8.23), e como “sinal” (arrabon, 2 Co 1.22) .

Agora o Espírito possui o significado de “penhor” [em 2 Co 5.5], exatamente porque Ele constitui um pagamento provisório do total que será recebido no futuro... Arrabon significa dinheiro pago em compras como garantia de que o total da compra será pago subseqüentemente. Neste caso, portanto, o Espírito é visto como relacionado especificamente com a vida futura, não como constituindo a composição substancial desta vida; e a posse presente do Espírito é considerada à luz de uma antecipação.

Portanto, para Paulo, o dom do Espírito significou tanto a realização da escatologia como uma reconfirmação dela; isso fica implicado pelo uso que ele faz do termo arrabon; a posse do Espírito significa que parte da futura felicidade já foi atingida e, igualmente, significa que parte dela ainda permanece futura, ainda não possuída”.

O Espírito Santo é também chamado de selo. Existem três passagens neotestamentárias onde é dito que os crentes foram selados com o Espírito: 2 Co 1.22; Ef 1.13 e 4.30. Nos tempos do Novo Testamento os pastores freqüentemente, marcavam seus rebanhos com selo para distinguir suas próprias ovelhas das de outros. Isto sugeriria que, quando a figura do selo é aplicada a crentes, ela designa uma marca de propriedade. Ser selado com o Espírito, então, significa ser marcado como possessão de Deus.

Em 2 Co 1.22, a idéia de que Deus nos selou (o verbo grego usado é uma forma de sphragizo) é colocado em paralelo com a idéia de que Deus nos Deu seu Espírito como garantia de que todas as suas promessas para conosco serão cumpridas. Embora esta passagem não afirme que é pelo dom do Espírito que Deus nos sela, isto fica implícito na segunda metade do verso. Em Ef 1.13, isto é tornado explícito: “nele [Cristo], quando crentes, fostes marcados com um selo, o Espírito Santo prometido” (NIV).

É significativo que aqui, bem como em 2 Co 1.22, o conceito de ser selado com o Espírito é posto em paralelo com o conceito do Espírito como nossa garantia (arrabon). Por causa disso, pareceria que ser selado com o Espírito não significa apenas ser designado como propriedade de Deus, mas também ser assegurado de que Deus continuará a nos proteger e completará, ao final, nossa salvação. Efésios 4.30, na verdade, afirma isso, expressamente: “e não entristeçais o Espírito de Deus no qual fostes selados para (eis) o dia da redenção”. G.Fitzer reitera este ponto ao dizer: “o Espírito Santo, como penhor da herança, é agora o selo com o qual o crente é marcado, designado e guardado para a redenção. Ele mostra que o crente é possessão de Deus para o dia da redenção”.

Portanto, o ensino de que os crentes foram selados com o Espírito Santo também tem implicações escatológicas. Ter recebido o Espírito como um selo significa, antes de tudo, estar seguro, de que se pertence a Deus - uma asseveração que deve ser entendida à luz do que foi dito anteriormente sobre o testemunho do Espírito em nossos corações, no sentido de que somos filhos de Deus. Mas o selo do Espírito também significa segurança para o futuro, e a certeza de que, ao final, vamos receber nossa herança em Cristo. Para citar Neill Hamilton: “Efésios 1.13 também apresenta a relação do Espírito com o crente de modo tal que vemos o Espírito como presente para o crente não apenas agora, enquanto ele crê em Cristo, mas também depois da hora quando o crente toma posse de sua herança na era futura. Aqui temos descrita uma função do Espírito no presente do crente que só é cheia de significado em relação ao futuro”.

Finalmente, passemos a ver como o Novo Testamento relaciona o Espírito Santo com a ressurreição do corpo. É dito do Espírito que ele está ativo tanto na ressurreição de Cristo como na ressurreição dos crentes. No que toca à ressurreição de Cristo, podemos notar a declaração de Geerhardus Vos: É pressuposto pelo Apóstolo, embora não expresso em palavras textuais, que Deus ressuscitou a Jesus através do Espírito” .

Talvez, a passagem mais clara que relaciona o Espírito com a ressurreição de Jesus Cristo seja a de Rm 1.3,4: “com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi, e foi designado filho de Deus, com poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos”. Esta passagem contém vários contrastes. Primeiro, há um contraste entre “descendência” (genomenos) e “designado” (horistheis). Parece melhor entender estes termos como descrevendo dois estados sucessivos na vida de Cristo. “Descendente” descreve a existência de Cristo durante sua vida terrena, antes de sua ressurreição, como alguém que nasceu de uma mãe terrena; “designado” descreve a declaração de Deus acerca de Cristo, como o “Filho de Deus em poder” durante a era pós-ressurreição.

O próximo contraste é entre as frases “segundo a carne” (kata sarka) e “segundo o Espírito de santidade” (kata pneuma hagiosynes). Estas frases contrastam o modo dos dois estados de existência. O modo de existência de Cristo, anterior à sua ressurreição, está descrito como sendo “segundo a carne”; seu modo de existência pós-ressurreição é dito ser “segundo o Espírito de santidade”. Hamilton tem algo útil a dizer acerca deste contraste: “As palavras ‘segundo o Espírito de santidade’ explicam este estado novo. Elas estão em contraste com as palavras ‘segundo a carne’, que descrevem o modo de ser de Cristo anterior à ressurreição. ‘Paulo, então, distingue dois modos diferentes da existência de Cristo que, de maneira nenhuma, estão no mesmo plano’. A carne foi o veículo da existência de Cristo antes da ressurreição. O Espírito Santo é agora o veículo o modo, a maneira de Seu estatus como Senhor”.

Um terceiro contraste é entre as expressões “de Davi” (literalmente: “da semente de Davi, ek spermatos David) e “pela ressurreição dos mortos” (ex anastaseos nekron). Estas duas expressões contrastam a origem de cada modo de existência. O modo de existência anterior de Cristo foi “da semente de Davi”, enquanto que seu último modo de existência foi “a partir da ressurreição dos mortos”. “A ressurreição... portanto é, conforme Paulo, a entrada em uma nova fase de filiação caracterizada pela posse e exercício de um poder sobrenatural único”.
Embora não esteja especificamente afirmado, nesta passagem, que o Espírito estava ativo, na ressurreição de Cristo, isso certamente está implícito. Porque se a nova fase, pós-ressurreição, da filiação de Cristo, é vivida “segundo o Espírito de santidade” então, certamente, esse mesmo Espírito de santidade tem de ter estado ativo com o fim de trazer Cristo para este novo estado. Se o Espírito sustenta Cristo durante seu estado de exaltação, o Espírito também deve ter inaugurado a vida ressurrecta de Cristo.

Esta igualmente ensinado, por implicação, em Rm 8.11, que o Espírito estava ativo na ressurreição de Cristo: “Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em vós habita”. Embora Paulo não diga aqui que foi o Espírito que ressuscitou dos mortos a Cristo, ele realmente afirma que o mesmo que ressuscitou Cristo também ressuscitará os crentes “pelo seu Espírito”. Certamente, se os crentes devem ser ressuscitados por meio do Espírito, deve ser correto inferir que o Espírito também ressuscitou a Cristo dentre os mortos.
Se o Espírito esteve ativo na ressurreição de Cristo, ele também está ativo na ressurreição dos crentes. Se olharmos mais uma vez para Romanos (8.11), veremos isto claramente demonstrado. Deus ressuscitará os crentes da morte, diz Paulo, “por meio do seu Espírito que [ou quem] em vós habita”. O Espírito Santo, portanto, é retratado aqui como a garantia de que um dia nossos corpos serão ressuscitados da morte a fim de compartilhar da existência gloriosa na qual Cristo já entrou.
“... no versículo 11 foi substituído o simples pneuma pela definição completa” “ o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos”. Nesta designação de Deus reside a força do argumento: o que Deus fez por Jesus, fará igualmente para o crente. É pressuposto pelo apóstolo, embora não expresso em palavras textuais, que Deus ressuscitou a Jesus através do Espírito. Aqui o argumento da analogia entre Jesus é mais fortalecido pela observação de que o instrumento pelo qual Deus efetuou a ressurreição de Jesus, já está presente nos leitores. A idéia de que o Espírito opera instrumentalmente na ressurreição e está claramente implícita”.

É lançada mais luz sobre o papel do Espírito na ressurreição dos crentes, em 1 Co 15.42-44: “Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, e ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural [soma psychikon],
ressuscita corpo espiritual [soma pneumatikon]”. Algumas traduções, como a RSV, trazem a expressão “corpo físico” para sõma psychikon, o que pode nos confundir, dando a impressão de que o “corpo espiritual” (soma pneumatikon) da ressurreição seja imaterial ou não-físico. A tradução “corpo natural”, para soma psychikon, encontrada nas versões ASV, NIV e RAB, ajuda o leitor a evitar esse erro. Com “corpo espiritual” Paulo não quer significar um corpo que seja não-material, mas antes, um corpo que esteja, completamente, sob controle do Espírito Santo.

“Esse objetivo Pneumatikon expressa a qualidade do corpo no estado escatológico. Todo pensamento de imaterialidade, ou eterialidade ou ausência de densidade física deve ser cuidadosamente afastado do termo... Para manter estes mal-entendidos afastados, deve-se preservar, cuidadosamente, a letra maiúscula tanto na tradução como vice-versa: pneumatikon (com inicial minúscula) quase com certeza nos leva ao erro, enquanto que, Pneumatikon (com inicial maiúscula), não apenas soa como uma nota de advertência mas também aponta positivamente na direção certa. Paulo tenciona caracterizar o estado de ressurreição como o estado no qual Pneuma [Espírito] governa”.

À luz da passagem acima, portanto, o Espírito Santo não está ativo apenas ao efetuar a ressurreição do corpo mas também, continuará (ativo) a sustentar e dirigir o corpo ressurrecto, depois da ressurreição ter acontecido: “Se o Espírito inaugurou e sustém a vida do Senhor ressurrecto, então o Espírito igualmente inaugurará e susterá a vida dos redimidos em sua ressurreição. Isto é verdadeiro porque Paulo vê, no Senhor exaltado, a atual realização do futuro dos redimidos”.
Falta destacar um elemento. Se é verdade, como Paulo nos conta em 2 Coríntios (3.18), que o Espírito já está operando em nós agora, transformando-nos na imagem de Cristo, conclui-se que esta renovação progressiva é um tipo de antecipação da ressurreição do corpo. Dessa forma, o Espírito Santo é o elo de ligação entre o corpo presente e o corpo ressurrecto.

“O Espírito não somente opera no homem, portanto, mas também renova sua humanidade. Mas o segredo da continuidade entre o corpo presente e o corpo ressurrecto não está no “ser humano”, mas também no Espírito. E o fundamento firme da crença que um dia o mortal vestirá a imortalidade está em conformidade com isto. Quem nos tem preparado para este fim é Deus, que nos deu o Espírito como um penhor (2 Co 5.5). Neste sentido, a obra é renovação do Espírito nos crentes, durante sua vida presente pode também ser entendida como um início da ressurreição do corpo, e ser descrita por Paulo desta forma (cp 2 Co 3.18; 4.10, 11, 16, 17; Ef 5.14; Fp 3.10,11). Assim, o esplendor da glória da vida futura os ilumina mesmo agora (2 Co 3.18; 4.6), as primícias e penhor no tempo presente de sua ressurreição da morte (cf Gl 6.8; Rm 8.23; 2 Co 5.5)” .

Em conclusão, podemos dizer que, na posse do Espírito, nós que estamos em Cristo, temos a prova antecipada das bênçãos da era vindoura, e um penhor e garantia da ressurreição do corpo. Dessa forma, agora, nós temos apenas as primícias. Aguardamos a consumação final do Reino de Deus, quando então desfrutaremos dessas bênçãos em sua plenitude.