A doutrina da Criação


Enquanto a filosofia grega procurava a explicação do mundo num dualismo que envolve a eternidade da matéria, ou num processo de emanação que faz do mundo a manifestação eterna de Deus, a igreja cristã desde o começo ensinava a doutrina da criação ex nihilo e como um ato livre de Deus. Esta doutrina foi aceita com singular unanimidade desde o início. Acha-se em Justino Mártir, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes, e outros. Teófilo foi o primeiro “pai da igreja” a salientar o fato de que os dias da criação foram dias literais. Esta parece ter sido a opinião de Irineu e Tertuliano também e, com toda a probabilidade, era a opinião comum da igreja. Clemente e Orígenes achavam que a criação tinha sido realizada num momento único e indivisível, e entendiam sua descrição como obra de vários dias como um simples recurso literário para descrever a origem das coisas na ordem do seu valor ou da sua conexão lógica. A idéia de uma criação eterna, como ensinava Orígenes, geralmente era rejeitada. Ao mesmo tempo, alguns dos chamados pais da igreja expressaram a idéia de que Deus sempre foi Criador, embora o universo criado tenha começa do no tempo. Durante a controvérsia trinitária, alguns deles acentuaram o fato de que, em distinção da geração do Filho, que foi um ato necessário do Pai, a criação do mundo foi um ato livre do Deus triúno. Agostinho tratou da obra da criação mais minuciosamente que os outros. Ele argumentava que esteve eternamente na vontade de Deus e, portanto, não produziu mudança nele. Antes da criação o tempo não existia, dado que o mundo foi trazido à existência juntamente com o tempo, antes que no tempo.

A pergunta sobre o que fazia Deus nas muitas eras antes da criação baseia-se num falso conceito da eternidade. Enquanto a igreja em geral parece que ainda sustentava que o mundo foi criado em seis dias comuns, Agostinho sugeriu uma conceituação um tanto diferente. Ele defendia vigorosamente a doutrina da creatio ex nihilo, mas distinguia dois momentos da criação: a produção da matéria e dos espíritos do nada, e a organização do universo material. Achava difícil dizer de que espécie eram os dias de Gênesis, mas evidentemente estava inclinado a pensar que Deus criou todas as coisas num momento de tempo, e que a idéia de dias foi simplesmente introduzida para auxiliar a inteligência finita. Os escolásticos discutiram bastante sobre a possibilidade da criação eterna: Alguns, como Alexandre de Hales, Boaventura, Alberto Magno, Henrique de Ghent, e a grande maioria dos escolásticos negando-a; e outros como Tomaz de Aquino, Duns Scotus, Durandus, Biel, e outros, afirmando-a. Todavia, a doutrina da criação com o tempo ou nele levou a palma. Erígena e Eckhart constituíram exceções, ensinando que o mundo foi originado por emanação. Ao que parece, os dias da criação eram considerados como dias comuns, apesar de Anselmo opinar que talvez fosse necessário concebe-los como diferentes sos nossos dias atuais.

Os reformadores defendiam firmemente a doutrina da criação do nada, por um livre ato de Deus, no tempo ou com ele, e consideravam os dias da criação como seis dias literais. Esta concepção também foi mantida em geral na literatura do pós-Reforma, dos séculos dezesseis e dezessete, embora alguns teólogos (como Maresius, por exemplo) tenham falado ocasionalmente em criação contínua. No século dezoito, porém, sob a influência dominadora do panteísmo e do materialismo, a ciência vestiu contra a doutrina da criação esposada pela igreja. Substituiu a idéia da absoluta originação por um fiat divino pela evolução ou desenvolvimento. Muitas vezes o mundo era apresentado como uma manifestação necessária do Absoluto. Sua origem foi empurrada para trás, milhares e até milhões de anos, rumo a um passado desconhecido. E houve teólogos que logo se engajaram em diversas tentativas da harmonizar a doutrina da criação com ensinos da ciência e da filosofia. Alguns sugeriram que os primeiros capítulos de Gênesis fossem interpretados alegórica ou miticamente; outros, que transcorreu um longo período de tempo entre a criação primária de Gn 1.1,2 e a criação secundária dos versículos subseqüentes; e ainda outros, que os dias da criação foram de fato longos períodos de tempo.

Prova Bíblica da Doutrina da Criação.

Não se acha a prova bíblica da doutrina da criação numa única e restrita porção da Bíblia, mas em todas as partes da palavra de Deus. Não consiste de umas poucas e esparsas passagens de duvidosa interpretação, mas sim, de um grande número de claras e inequívocas afirmações que falam da criação do mundo como um fato histórico. Temos primeiramente a extensa narrativa da criação nos dois primeiros capítulos de Gênesis, que será discutida mais pormenorizadamente quando for considerada a criação do universo material. Estes capítulos certamente parecem ao leitor despreconcebido uma narrativa histórica e o registro de um fato histórico. E as muitas referências espalhadas pela Bíblia toda não a consideram diferentemente. Todas elas se referem à criação como um fato da história. As diversas passagens em que se acham essas referências podem ser classificadas como segue: (1) Passagens que salientam a onipotência de Deus na obra da criação, Is 40.26, 28; Am 4.13. (2) Passagens que indicam Sua exaltação acima da natureza como Deus grandioso e infinito, Sl 90.2; 102.26, 27; At 17.24. (3) Passagens que se referem a sabedoria de Deus na obra da criação, Is 40.12-14; Jr 10.12-16; Jo 1.3. (4) passagens que vêem a criação do ponto de vista da soberania e do propósito de Deus na criação, Is 43.7; Rm 1.25. (5) passagens que falam da criação como a obra fundamental de Deus. Ne 9.6: “Só tu és o Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora”. Esta passagem é típica de várias outras passagens menos extensas que se acham na Bíblia e que dão ênfase ao fato de que Jeová é o criador do universo, Is 42.5; 45.18; Cl 1.16; Ap 4.11; 10.6.

A Idéia da Criação

A crença da igreja na criação do mundo vem expressa já no primeiro artigo da Confissão de Fé Apostólica (Credo Apostólico): “Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador dos céus e da terra”. Esta é uma expressão de fé mantida pela Igreja Primitiva de que Deus, por Seu poder absoluto, produziu do nada o universo. As palavras “Criador dos céus e da terra” não constavam de forma originária do Credo, mas representam um acréscimo posterior. Eles atribuem ao pai, isto é, à primeira pessoa da Trindade, a originação de todas as coisas. Isso está em harmonia com a descrição do Novo Testamento de que todas as coisas são do pai, mediante o Filho, e no Espírito Santo. A palavra “Criador” traduz o termo grego poieten, que se acha na forma grega da Confissão Apostólica, através do vocábulo creatorem, presente na forma latina. A Igreja primitiva entendia o verbo criar no sentido estrito de “produzir do nada alguma coisa”. Deve-se notar nem sempre a Escritura usa a palavra hebraica bara’ e o termo grego ktizein naquele sentido absoluto. Também emprega esses termos para denotar uma criação secundária, na qual Deus fez uso de material já existente, mas que não podia causar por si mesmo o resultado indicado, Gn 1.21, 27; 5.1; Is 45.7,12; 54.16; Am 4.13; 1 Co 11.9; Ap 10.6. Utiliza-os até mesmo para designar algo que vem à existência sob a direção providencial de Deus, Sl 104.30: Is 45.7, 8: 65.18; 1 Tm 4.4. Dois outros termos são utilizados como sinônimos do termo “criar”, a saber, “fazer” (hebraico, ‘asah; grego, poiein) e “formar” (hebraico, yatsar; grego, plasso). O primeiro é claramente usado em todos os três sentidos indicados acima: de criação primária, Gn 2.4; Pv 16.4; At 17.24; mais freqüentemente, de criação secundária, Gn 1.7, 16, 26; 2.22; Sl 89.47; e de obras da providência, Sl 74.17. O outro é usado semelhantemente com referência à criação primária, Sl 90.2 (talvez o único exemplo deste uso); à criação secundária, Gn 2.7, 19; Sl 104.26; Am 4.13; Zc 12.1: e à obra da previdência, Dt 32.18; Is 43.1, 7, 21; 45.7. As três palavras acham-se juntas em Is 45.7. A criação, no sentido estrito da palavra, pode ser definida como o livre ato de Deus pelo qual Ele, segundo a Sua vontade soberana e para a Sua própria glória, produziu no princípio todo o universo, visível e invisível, sem uso de material preexistente, e assim lhe deu uma existência distinta da Sua própria e, ainda assim, dele dependente. Tendo em vista os dados escriturísticos indicados acima, é evidente, porém, que essa definição se aplica àquilo que é geralmente conhecido como criação primária ou imediata, isto é, a criação descrita em Gn 1.1. Mas a Bíblia evidentemente usa a palavra “criar” também em casos em que Deus fez uso de materiais preexistentes, como na criação do sol, da lua, das estrelas, dos animais e do homem. Daí muitos teólogos acrescentam um elemento à definição da criação. Assim, Wollebius define: “A criação é o ato pelo qual Deus produz o mundo e tudo que nele há, em parte do nada e em parte de material que por sua própria natureza é inepto, para a manifestação da glória do Seu poder, sabedoria e bondade”. Entretanto, mesmo assim, a definição não cobre aqueles casos, também designados na Escritura como obra criadora, em que Deus trabalha mediante causa secundárias, Sl 104.30; Is 45.7, 8; Jr 31.22; Am 4.13, e produz resultados que só Ele pode produzir. A definição dada inclui vários elementos que pedem mais ampla consideração.

1. A CRIAÇÃO É UM ATO DO TRINO DEUS. A Escritura nos ensina que o trino Deus é o Autor da criação, Gn 1.1; Is 40.12; 44.24; 45.12, e isto O distingue dos ídolos. Sl 96.5; Is 37.16; Jr 10.11, 12. Embora o pai esteja em primeiro plano na obra da criação, 1 Co 8.6, esta é também claramente reconhecida como obra do Filho e do Espírito Santo. A participação do Filho nela é indicada em Jo 1.3; 1 Co 8.6; Cl 1.15-17, e a atividade do Espírito nessa obra acha expressão em Gn 1.2; Jó 26.13; 33.4; Sl 104.30; Is 40.12, 13. A segunda e a terceira pessoa não são poderes dependentes ou meros intermediários, mas sim, Autores independentes, juntamente com o pai. A obra da criação não foi dividida entre as três pessoas, mas a obra completa, embora em diferentes aspectos, é atribuída toda a cada uma das pessoas. Todas as coisas são, de uma só vez, oriundas do Pai, por meio do Filho, e no Espírito Santo. Pode-se dizer em geral que o ser provém do Pai, o pensamento ou idéia provém do Filho, e a vida provém do Espírito Santo. Desde que o Pai toma a iniciativa na obra da criação, muitas vezes esta é atribuída a Ele, em termos da economia da Trindade.

2. A CRIAÇÃO É UM ATO LIVRE DE DEUS. Às vezes a criação é descrita como um ato necessário de Deus, e não como um ato livre e determinado por Sua soberana vontade. As velhas teorias da emanação e suas réplicas modernas, as teorias panteístas, naturalmente fazem do mundo apenas um momento do processo da evolução divina (Spinoza, Hegel) e, portanto, vêem o mundo como um ato necessário de Deus. E a necessidade que eles têm em mente não é uma necessidade relativa, resultante do decreto divino, mas uma necessidade absoluta que decorre da própria natureza de Deus, da Sua onipotência (Orígenes) ou do Seu amor (Rothe). Todavia, esta posição não é bíblica. As únicas obras que são inerentemente necessárias, como uma necessidade resultante da própria natureza de Deus, são as opera ad intra, as obras das pessoas do Ser Divino, separadamente consideradas: geração, filiação e processão. Dizer que a criação é um ato necessário de Deus é declarar também que ela é tão eterna como as obras imanentes de Deus. Se algum tipo de necessidade deve ser atribuída às opera ad extra de Deus, é uma necessidade condicionada pelo decreto divino e pela resultante constituição das coisas. É uma necessidade dependente da soberana vontade de Deus, e, portanto, não é necessidade no sentido absoluto da palavra. A Bíblia nos ensina que Deus criou todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade, Ef 1.11; Ap 4.11; e que Ele é auto-suficiente e não depende de Suas criaturas, de modo nenhum, Jó 22.2, 3; At 17.25.

3. A CRIAÇÃO É UM ATO TEMPORAL DE DEUS

a. O ensino da Escritura sobre este ponto. A Bíblia começa com a singela declaração: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Gn 1.1. Sendo dirigida a todas as classes de pessoas, ela emprega a linguagem comum da vida diária, e não a linguagem técnica da filosofia. O termo hebraico bereshith (literalmente, “no princípio”) é indefinido e, naturalmente, dá surgimento à questão: No princípio do quê? Parece melhor tomar a expressão no sentido absoluto, como uma indicação do início de todas as coisas temporais e do próprio tempo: Keil, porém, é de opinião que se refere ao princípio da obra da criação. Tecnicamente falando, não é correto presumir que já existia o tempo quando Deus criou o mundo, e que Ele, em certo ponto desse tempo existente, deu “princípio” à produção do universo. O tempo é apenas uma das formas de toda a existência criada e, portanto, não poderia existir antes da criação. Por essa razão Agostinho achava mais correto dizer que o mundo foi criado cum tempore (juntamente com o tempo), que afirmar que foi criado in tempore (no tempo). A Escritura fala desse começo noutros lugares também. Mt 19.4, 8; Mc 10.6; Jo 1.1, 2; Hb 1.10. Também está claramente implícito que o mundo teve começo em passagens como Sl 90.2, “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu é Deus”: e Sl 102.25, “Em tempos remotos lançaste os fundamentos da terra: e os céus são obras das tuas mãos”.

b. Dificuldades que pesam sobre esta doutrina. Antes do princípio mencionado em Gn 1.1, devemos postular uma eternidade sem princípio, durante a qual somente Deus existia. Como havemos de preencher estas eras supostamente vazias da vida eterna de Deus? O que será que Deus fazia antes da criação do mundo? É tão impossível pensar nele como um Deus otiosus (um Deus inativo), que geralmente Ele é entendido como actus purus (pura ação). A escritura sempre O descreve trabalhando, Jo 5.17. Então como dizer que Ele passou de um estado de inatividade para um estado de ação? Além disso, como se pode conciliar a transição de um estado não criador para um estado criador, com Sua imutabilidade? E se Ele tinha o propósito eterno de criar, por que não o fez imediatamente? Por que deixou passar toda uma eternidade, antes de pôr em ação o Seu plano? Ademais, por que Ele terá escolhido aquele momento particular para a Sua obra criadora?

c. Soluções sugeridas. (1) Teoria da criação eterna. Conforme alguns, como Orígenes, Scotus Erígena, Rothe, Dorner e Pfleiderer. Deus tem estado criando desde toda a eternidade, de sorte que o mundo, apesar de ser uma criatura e de ser dependente, é tão eterno como o próprio Deus. Tem-se fundamentado isso na onipotência, na atemporalidade, na imutabilidade e no amor de Deus: mas nenhuma destas qualidades implica ou envolve necessariamente a criação eterna. Essa teoria não somente é contestada pela Escritura, mas também é contrária à razão, pois (a) uma criação desde a eternidade é uma contradição de termos: e (b) a idéia de criação eterna, aplicada ao presente mundo, sendo este sujeito à lei do tempo como é, baseia-se numa identificação do tempo e a eternidade, quando estes são essencialmente diferentes.

(2) Teoria da subjetividade do tempo e da eternidade. Alguns filósofos especulativos, como Spinoza, Hegel e Green, alegam que a distinção de tempo e eternidade é puramente subjetiva e se deve à nossa condição finita. Daí, eles gostariam que nos elevássemos a um lugar estratégico mais alto e considerássemos as coisas sub specie aeternitatis (do ponto de vista da eternidade). O que existe para a nossa consciência como desenvolvimento no tempo, par a consciência divina existe simplesmente como um conjunto eternamente completo. Mas essa teoria é refutada pela escritura, como a anterior. Gn 1.1; Sl 90.2; 102.25; Jo 1.3. Além disso, torna as realidades objetivas em formas subjetivas de consciência, e reduz toda a história a uma ilusão. Afinal de contas, o desenvolvimento no tempo é uma realidade; há uma sucessão temporal em nossa vida consciente e na vida da natureza ao nosso redor. As coisas que aconteceram ontem não são as que estão acontecendo hoje.

d. Direção na qual se deve procurar a solução. Em relação com o problema em foco, diz corretamente o dr. Orr: “A solução só pode estar em obter-se uma idéia apropriada da relação da eternidade com o tempo”. Acrescenta ele que, quando pode ver, isso ainda não foi realizado satisfatoriamente. Grande parte da dificuldade encontrada aqui, deve-se sem dúvida ao fato de que pensamos na eternidade como se fosse uma indefinida extensão de tempo, como, por exemplo, quando falamos das eras da relativa inatividade de Deus antes da criação do mundo. A eternidade de Deus não é um período de tempo indefinidamente prolongado, mas antes, uma coisa essencialmente diferente, que somos incapazes de conceber. Sua existência é uma existência atemporal, uma presença eterna. O remoto passado e o mais distante futuro estão ambos presentes para Ele. Ele age em todas as Suas obras, e, portanto, também na criação, como O Eterno, e não temos direito de retratar a criação como um ato de Deus na esfera temporal. Em certo sentido, pode ser chamado ato eterno, mas só no sentido em que os atos de Deus são eternos. Como atos de Deus, todos eles são obras realizadas na eternidade. Contudo, não é eterno no mesmo sentido em que a geração do Filho é eterna, pois esta constitui um ato imanente de Deus no sentido absoluto da palavra, enquanto que a criação redunda numa existência temporal e, assim, termina no tempo. Geralmente os teólogos distinguem entre criação ativa e passiva, a primeira indicando a criação como um ato de Deus, e a última, seu resultado, o mundo criado. A primeira não é caracterizada por sucessão temporal reflete a ordem determinada no decreto de Deus. Quanto à objeção de que uma criação no tempo implica mudança em Deus. Wollebius observa que “a criação é uma passagem, não do Criador, mas da criatura, da potencialidade para a realização concreta.”

4. A CRIAÇÃO COMO UM ATO PELO QUAL ALGO É PRODUZIDO DO NADA.

a. A doutrina da criação é absolutamente única. Tem havido muita especulação acerca da origem do mundo, e várias teorias têm sido propostas. Uns declaravam que o mundo é eterno, enquanto outros viam nele o produto de um espírito antagônico (gnósticos). Uns sustentavam que ele foi feito de material preexistente, a que Deus deu forma (Platão); outros afirmavam que foi originado por emanação da substância divina (gnósticos sírios: Swedenborg): e ainda outros o consideravam como a aparência fenomênica do Absoluto, sendo este o fundamento oculto de todas as coisas (panteísmo). Em oposição a todas esses vãs especulações dos homens, a doutrina da Escritura sobressai com grandiosa sublimidade: “No princípio criou Deus os céus e a terra”.

b. Termos bíblicos para “criar”. Na narrativa da criação, como já foi indicado, são empregados três verbos a saber, bara’, ‘asah e yatsar, e são utilizados alternadamente na Escritura, Gn 1.26, 27; 2.7. A primeira palavra é a mais importante. Seu sentido originário é partir, cortar, dividir; mas, em acréscimo, significa também formar, criar e, num sentido de derivação mais distante, produzir, gerar e regenerar. A palavra mesma não transmite a idéia de produzir do nada alguma coisa, pois é usada até com referência a obras da providência, Is 45.7; Jr 31.22; Am 4.13. Contudo, tem caráter distintivo: é sempre empregada com relação a alguma produção divina, nunca a qualquer produção humana; e nunca tem acusativo de material, pelo que serve para expressar a grandiosidade da obra de Deus. A palavra ‘asah é mais geral, significando fazer ou formar, e, portanto, é empregada no sentido geral de fazer, formar, fabricar , modelar. A palavra yastar tem, mais distintamente, o sentido de modelar com materiais preexistentes e, portanto, é empregada para descrever o trabalho do oleiro na modelagem de vasos de barro. As palavras do Novo Testamento são ktizein, Mc 13.19, poiein, Mt 19.4: themelioum, Hb 1.10, katartizein, Rm 9.22, kataskeuazein, Hb 3.4, e plassein, Rm 9.20. Nenhuma dessas palavras expressa diretamente a idéia de criação do nada.

c. Sentido da expressão “criação do nada”. A frase “criar ou produzir do nada” não se acha na Escritura. É oriunda de um dos apócrifos, a saber, 2 Macabeus 7.28. A expressão ex nihilo tem sido mal interpretada e criticada. Alguns até consideram a palavra nihilum (nada) como um designativo de certa matéria com a qual o mundo foi criado, matéria sem qualidades e sem forma. Mas isso é pueril demais para merecer séria consideração. Outros entendem que a expressão “criar do nada” significa que o mundo veio a existir sem nada ou ninguém que atuasse como sua causa, e passaram a criticá-la como conflitante com o que geralmente se considera verdade axiomática - ex nihilo nihil fit (do nada, nada se fez). Mas esta crítica é inteiramente destituída de base. Dizer que Deus criou do nada o mundo não equivale a dizer que o mundo veio a existir sem causa. Deus mesmo, ou, mais especificamente, a vontade de Deus é a força causante do mundo. Martensen expressa-se come estas palavras: “O nada do qual Deus cria o mundo são as eternas possibilidades da Sua vontade, que são as fontes de todas as realidades do mundo”. Se a frase latina, “ex nihilo nihil fit” for tomada no sentido de que não pode haver nenhum efeito sem causa, sua veracidade pode ser admitida, mas isso não pode ser considerado como uma objeção válida à doutrina da criação do nada. Mas se for entendida como expressando a idéia de que nada pode originar-se, a não ser de material previamente existente, certamente não poderá ser tida como uma verdade clara e inconteste. Neste caso, é na verdade uma suposição arbitrária que, como o assinala Shedd, não faz justiça sequer aos pensamentos e volições do homem, que são ex nihilo. Mas, mesmo que essa frase expressasse de fato uma verdade pertencente à experiência comum, no que se refere às obras humanas, isto ainda não provaria que ela é verdadeira com respeito à obra do absoluto poder de Deus. Contudo, em vista do fato de que a expressão, “criação do nada”, está sujeita a ser mal compreendida, e foi mal compreendida muitas vezes, é preferível falar em criação sem uso de material preexistente.

d. Base Bíblica da doutrina da criação do nada. Gn 1.1 registra o início da obra da criação, e certamente não apresenta Deus produzindo o mundo com material preexistente. Foi criação do nada, criação no sentido estrito da palavra e, daí, a única parte da obra registrada em Gn 1 a que Calvino aplica o termo. Mesmo na parte restante do capítulo, porém, Deus é descrito produzindo todas as coisas pela palavra do Seu poder, por um simples fiat divino. A mesma verdade é ensinada em passagens como Sl 33.6, 9 e 148.5. A passagem mais forte é Hb 11.3: “Pela fé entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”, ou, na versão utilizada pelo autor, “... de maneira que, o que se vê não foi feito das cousas que aparecem”. A criação é descrita aqui como um fato que apreendemos somente pela fé. Pela fé entendemos (percebemos, não compreendemos) que o mundo foi estruturado ou formado pela palavra de Deus, a palavra de poder de Deus, o fiat divino, de modo que as coisas que se vêem, as coisas visíveis deste mundo, não foram feitas das coisas que aparecem, que são visíveis, ou que, pelo menos, são vistas ocasionalmente. De acordo com essa passagem que pode ser citada nesta conexão é Rm 4.17, que fala de Deus, “que vivifica os mortos e chama à existência as cousas que não existem como se existissem” (Moffatt “que faz viver aos mortos e chama à existência o que não existe”). É verdade que, nesse contexto, Paulo não fala da criação do mundo, mas da esperança de Abraão, de que teria um filho. Contudo, a descrição de Deus aqui dada é geral e, portanto, também é de aplicação geral. Pertence à própria natureza de Deus ser Ele capaz de chamar à existência o que não existe, e Ele o faz.

5. CRIAÇÃO PROPICIA AO MUNDO UMA EXISTÊNCIA DISTINTA E, TODAVIA, SEMPRE DEPENDENTE.
a. O mundo tem existência distinta. Quer dizer que o mundo não é Deus, nem alguma parte de Deus, mas algo absolutamente distinto de Deus; e que difere de Deus, não meramente em grau, mas em suas propriedades essenciais. A doutrina da criação implica que, enquanto Deus é auto-existente e auto-suficiente, infinito e eterno, o mundo é dependente, finito e temporal. Um jamais poderá transformar-se no outro. Esta doutrina é um obstáculo absoluto para a antiga idéia de encarnação, bem como para todas as teorias panteísticas. O universo não é a forma de existência de Deus, nem a aparência fenomênica do Absoluto: e Deus não é simplesmente a vida ou a alma ou lei interna do mundo, mas frui Sua vida pessoal, eternidade completa, acima do mundo, com absoluta independência dele. Ele é o Deus transcendente, glorioso em santidade, temível em louvores, que opera maravilhas. Esta doutrina apóia-se em passagens da Escritura que (1) atestam a existência distinta do mundo, Is 42.5; At 17.24; (2) falam da imutabilidade de Deus, Sl 102.27; Ml 3.6; Tg 1.17; (3) traçam uma comparação entre Deus e a criatura, Sl 90.2: 102.25-27; 103. 15-17; Is 2.21; 22.17, etc.; e (4) falam do mundo como pecaminoso ou jazendo no pecado, Rm 1.18-32; 1 Jo 2.15-17, etc.

b. O mundo é sempre dependente de Deus. Apesar de Deus ter dado ao mundo uma existência distinta da Sua, não se afastou do mundo após havê-lo criado, mas continuou na mais estreita conexão com ele. O universo não é como um relógio a que Deus deu corda e deixou andar sem mais nenhuma intervenção divina. Esta concepção deísta da criação não é nem bíblica nem científica. Deus não é somente o Deus transcendente, infinitamente exaltado acima de todas as Suas criaturas; é também o Deus imanente, presente em cada parte da Suas criação, e cujo Espírito age no mundo inteiro. Está essencialmente presente em todas as Suas criaturas, e não apenas per potentiam (por Seu poder), mas não está presente em cada uma delas da mesma maneira. Sua imanência não deve ser interpretada como extensão ilimitada através de todos os espaços do universo, nem como uma presença participativa, estando em parte aqui e em parte ali. Deus é espírito, e exatamente porque é espírito está presente em todos os lugares de modo completo. Dele se diz que enche o céu e a terra, Sl 139.7-10; Jr 23.24, constitui a esfera em que vivemos, nos movemos e existimos At 17.28, renova a face da terra por Seu Espírito, Sl 104.30, habita nos quebrantados de coração. Sl 51.11; Is 57.15, e na igreja como Seu templo, 1 Co 3.16; 6.19; Ef 2.22. Tanto a transcendência como a imanência, acham expressão numa mesma passagem da Escritura, a saber, Ef 4.6, onde o apóstolo diz que temos “um só Deus e pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”. A doutrina da imanência divina foi dilatada a ponto de confundir-se com o panteísmo em grande parte da teologia moderna. O mundo, particularmente o homem, foi considerado como a manifestação fenomênica de Deus. A “teologia da crise”, assim chamada, representa forte reação a essa posição. Às vezes se pensa que esta teologia, com sua ênfase à “infinita diferença qualitativa” entre o tempo e a eternidade, a Deus como o “totalmente Outro” e o Deus oculto, e à distância que existe entre Deus e o homem, naturalmente elimina a imanência de Deus. Todavia, Brunner dá-nos a certeza de que não é assim. Diz ele: “Tem-se dito muito absurdo acerca da ‘teologia bartiana’, de que só tem percepção quanto à transcendência de Deus, e não quanto à Sua imanência. Como se nós também não estivéssemos cientes do fato de que Deus, o Criador, sustenta todas as coisas pelo Seu poder, de que Ele imprimiu a marca da Sua divindade no mundo e criou o homem à Sua imagem”. E Barth diz: “Deus estaria morto, se movesse o Seu mundo só fora dele, se Ele fosse uma ‘coisa em Si mesmo’, e não Aquele que é Um em todos, o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o princípio e o fim”. Estes homens se opõem à moderna concepção panteísta da imanência divina, e também à idéia de que, em virtude desta imanência, o mundo é uma luminosa revelação de Deus.

6. O FIM ÚLTIMO DE DEUS NA CRIAÇÃO. Tem-se debatido com freqüência a questão do fim último de Deus na obra da criação. No transcurso da história, a questão recebeu especialmente uma resposta dupla.

a. A felicidade do homem ou da humanidade. Alguns dos antigos filósofos, como Platão, Filo e Sêneca, afirmavam que a bondade de Deus O induziu a criar o mundo. Ele desejava comunicar-se com as Suas criaturas: a felicidade destas era o fim que Ele tinha em vista. Embora alguns teólogos cristãos tenham estado em harmonia com essa idéia, ela se tornou proeminente principalmente através do humanismo do período da Reforma e do racionalismo do século dezoito. Muitas vezes essa teoria foi apresentada de maneira muito superficial. A melhor forma em que é exposta traz a noção de que Deus não poderia fazer-se a Si próprio o fim da criação, porquanto Ele é suficiente para Si mesmo e não poderia ter necessidade de coisa alguma. E se Ele não poderia fazer-se a Si próprio o fim, então este só pode ser encontrado na criatura, especialmente no homem, e, finalmente, em sua suprema felicidade. O conceito teleológico segundo o qual o bem-estar ou a felicidade do homem ou da humanidade constitui o fim último da criação, caracterizou o pensamento de homens influentes como Kant, Schleiermacher e Ritschl, conquanto não apresentem todos do mesmo modo. Mas essa teoria não satisfaz, por várias razões: (1) É indubitável que Deus revela a Sua bondade na criação; contudo, não é correto dizer que a Sua bondade ou o Seu amor não poderia expressar-se, se o mundo não existisse. As relações pessoais dentro da Trindade propiciavam todo o necessário para uma plena e eterna vida de amor. (2) parece perfeitamente evidente que Deus não existe por causa do homem, mas sim, o homem por causa de Deus. Somente Deus é o Criador e o Sumo Bem, ao passo que o homem é apenas uma criatura que, por esta mesma razão, não pode ser o fim da criação. O temporal encontra a sua finalidade no eterno, o humano no divino, e não vice-versa. (3) A teoria não se coaduna com os fatos. É impossível subordinar tudo que se acha na criação a esse fim, e explicar tudo em relação com a felicidade humana. Evidencia-o perfeitamente a consideração de todos os sofrimentos que há no mundo.

b. A glória declarativa de Deus. A igreja de Jesus Cristo encontrou o verdadeiro fim da criação, não em alguma coisa que esteja fora de Deus, mas em Deus mesmo, mais particularmente na manifestação externa da Sua excelência inerente. Não significa que receber Deus glória da parte de outros seja o fim último. O recebimento de glória por meio de louvores prestados por Suas criaturas morais é um fim que está incluído no fim supremo, mas não constitui em si mesmo esse fim. Deus não criou primeiramente para receber glória, mas para tornar a Sua glória saliente e manifesta. As gloriosas perfeições de Deus são demonstradas em toda a Sua criação; e esta demonstração não é para uma vã mostra, para uma exibição para ser meramente admirada pelas criaturas, mas visa também à promoção do sue bem-estar e da sua perfeita felicidade. Além disso, procura afinar os seus corações para os louvores do Criador, e para arrancar das suas almas expressões da sua gratidão, do seu amor e da sua adoração. O fim supremo de Deus na criação – a manifestação da Sua glória – inclui, pois, como fins subordinados, a felicidade e salvação da Suas criaturas, e o recebimento de louvor de corações agradecidos e desejosos de adora-lo. Esta doutrina tem suporte nas seguintes considerações: (1) Baseia-se no testemunho da Escritura, Is 43.7; 60.21; 61.3; Ez 36.21, 22; 39.7; Lc 2.14; Rm 9.17; 11.36; 1 Co 15.28; Ef 1.5, 6, 9, 12, 14; 3.9, 10; Cl 1.16. (2) Dificilmente o Deus infinito escolheria alguma coisa inferior ao fim supremo em toda a criação, e esse fim se pode achar nele mesmo. Se nações inteiras, comparadas com Ele, não passam de uma gota num balde, e são como o pó da balança, então, certamente, a Sua glória declarativa é intrinsecamente de muito maior valor que o bem de Suas criaturas, Is 40.15, 16. (3) A glória de Deus é o único fim coerente com a Sua independência e soberania. Cada qual depende de quem ou do que ele escolhe como o seu fim último. Se Deus escolhesse algo da criatura como o Seu fim é ultimo, isto O tornaria dependente da criatura naquela medida. (4) Nenhum outro fim seria suficientemente compreensivo para constituir o verdadeiro fim de todos os caminhos e obras de Deus na criação. Esse tem a vantagem de abranger, como subordinados, vários outros fins. (5) Esse é o único fim real e perfeitamente alcançado no universo. Não podemos imaginar que um Deus sábio e onipotente escolhesse um fim destinado a falhar no todo ou em parte, Jó 23.13. Não obstante, muitas das Suas criaturas nunca alcançam felicidade perfeita.

c. Objeções à doutrina de que a glória de Deus é o fim da criação. Eis as mais importantes: (1) faz do plano do universo um plano egoísta. Mas devemos distinguir entre egoísmo e razoável consideração própria ou amor próprio. Aquele é uma indevida ou exclusiva atenção ao conforto ou prazer próprio, sem consideração pela felicidade ou pelos direitos dos outros; este é a devida atenção à própria felicidade e ao próprio bem-estar, perfeitamente compatível com a justiça, a generosidade e a benevolência para com os demais. Ao procurar expressar-se para a glória do Seu nome, Deus não desconsiderou o bem-estar, o bem supremo dos outros; antes o promoveu. Além disso, essa objeção rebaixa o Deus infinito ao nível do homem finito, sim, mesmo do homem pecador, e O julga pelos padrões humanos, o que não tem base nenhuma. Deus não tem igual, e ninguém pode reivindicar nenhum direito contra Ele. Ao fazer da Sua glória declarativa o fim da criação, Ele escolheu o fim supremo; mas quando o homem faz de si mesmo o fim de todas as suas obras, não está escolhendo o fim supremo. Ele se alçaria a um nível mais elevado, se escolhesse o bem-estar da humanidade e a glória de Deus como a finalidade da sua vida. Finalmente, esta objeção é feita primariamente em vista do fato de que o mundo está cheio de sofrimentos, e de que há criaturas racionais de Deus que estão fadadas à destruição eterna. Mas isso não se deve à obra criadora de Deus, e, sim, ao pecado do homem, que estorvou a obra de Deus na criação. O fato de que o homem sofre as conseqüências do seu pecado e da sua insurreição não dá direito a ninguém para acusar Deus de egoísmo. Poder-se-ia também acusar o governo de egoísmo por preservar a sua dignidade e a majestade da lei contra todos os que a transgridem voluntariamente. (2) É contrária à auto-suficiência e independência de Deus. Procurar Deus a Sua honra desse modo mostra que Ele necessita da criatura. O mundo foi criado para glorificar a Deus, isto é, para acrescentar glória à Sua glória. Então, evidentemente, a Sua perfeição é carente em alguns aspectos: a obra da criação satisfaz uma carência e contribui para a perfeição divina. Mas esta explicação não é correta. O fato de que Deus criou o mundo para a Sua glória não significa que Ele precisava do mundo. Entre os homens, e isso universalmente, não se pode afirmar que a obra que eles realizam em favor de outros é necessária àqueles, para suprir-lhes alguma carência. Pode-se dizer isso quanto ao trabalhador comum, que trabalha pelo pão de cada dia, mas dificilmente será verdade quanto ao artista, que segue o impulso espontâneo do seu gênio. Do mesmo modo, há uma satisfação veraz e boa em Deus – Seu beneplácito – que se acha muito acima de qualquer necessidade e compulsão, e que encarna artisticamente os Seus pensamentos na criação e neles tem prazer. Além disso, não é certo que, quando Deus fez da Sua glória declarativa o fim último da criação, teve por objetivo principal o recebimento de alguma coisa. A suprema finalidade que Ele teve em vista não foi a de receber glória, mas, sim, a de manifestar nas obras das Suas mãos a Sua glória, e o firmamento mostrar as obras das Suas mãos, as aves dos céus e os animais do campo engrandece-lo, e os filhos dos homens entoar-lhe louvores. Mas, ao glorificarem o Criador, as criaturas nada acrescentam à perfeição do Seu Ser, mas apenas reconhecem a Sua grandeza e lhe atribuem a glória que lhe é devida