DIMENSÃO LINGÜISTICA DA BÍBLIA


(Vilson scholz)

Ninguém emprega as palavras a não ser para significar alguma coisa com elas. Daí se deduz que denomino sinais a tudo o que se emprega para significar alguma coisa além de Si mesmo. (AGOSTINHO, A doutrina cristã, I, cap.II.2, p.43)
Estar por dentro de estudos sistemáticos atualizados sobre a natureza da língua parece ser um fundamento indispensável para a boa exegese. (SILVA, 1983, p.10)

Em sua forma atual, a lingüística, como estudo científico da língua ou da linguagem humana, se estabeleceu no século XX, e floresceu a partir de 1950. Recebeu grande impulso com a publicação póstuma, em 1916, da obra Curso de lingüística geral, do francês Ferdinand de Saussure (1857-1913). No entanto, pode-se dizer que desde muito tempo as pessoas vêm se debatendo com algumas das questões propostas pela lingüística. A questão do vínculo entre as palavras e o que elas significam já ocupou Platão (429-347 a.C), no Crátilo. A distinção entre uma forma "interna" e outra "externa" da língua, conhecida hoje como distinção entre língua e fala, já havia sido antecipada pelo erudito alemão Wilhelm von Humboldt (1767-1835) (WEEDWOOD, 2002, p.108).

O papel de Ferdinand de Saussure

Seja como for, além de enfatizar a arbitrariedade dos signos verbais, ou seja, a tese de que os signos ou palavras não têm vínculo natural com o que significam, Saussure também estabeleceu as seguintes distinções ou dicotomias que têm implicações para a interpretação da Bíblia:

1) Eixo diacrônico e eixo sincrônico da língua. O eixo diacrônico corresponde, mais ou menos, à gramática histórica, isto é, às modificações que a língua sofre ao longo da história. O eixo sincrônico, que recebe a ênfase, é o estado em que a língua se encontra em determinado momento.
O eixo diacrónico pode ser desenhado como uma linha horizontal; o eixo sincrônico, como uma linha vertical, ou, então, como várias linhas verticais, para sinalizar os diferentes momentos da língua.

Atentar para a sincronia é um aspecto muito importante em exegese. As palavras têm que ser entendidas no sentido que tinham na época em que foram escritas. Por exemplo: "Lei", no AT, tem um sentido mais amplo do que sugere o dito de Melanchthon - "a lei sempre acusa" -, pois designa "ensino ou revelação de Deus", podendo incluir evangelho. "Igreja" nunca designa um prédio. "Carne" raramente nos remete ao açougue, por mais que Lutero já se queixasse de que os alemães só pensavam em açougue quando ouviam essa palavra!

2) Eixo sintagmático e eixo paradigmático. O eixo sintagmático é a seqüência linear do discurso. O eixo paradigmático ou associativo considera o relacionamento dos signos com outros signos da língua.

3) Estrutura profunda e estrutura de superfície. À luz desta distinção, aquilo que morfologicamente, isto é, em termos de forma, é um substantivo, pode, na verdade, do ponto de vista semântico, ser um verbo.
Algumas das teses ou ênfases saussurianas têm sido questionadas. Entre elas, a ênfase na língua, como sistema abstrato, em detrimento da fala ou dos atos de fala, isto é, da língua em uso. Também se questiona a noção de que significado é diferença, ou seja, que lápis é lápis porque não é caneta, com a exclusão do aspecto da referência. E, por fim, Saussure deu ênfase demais à palavra isolada, esquecendo-se da frase ou do discurso como um todo, que é o uso lingüístico normal.


A semântica e o significado

Um dos ramos mais fascinantes da lingüística é a semântica, que se ocupa com o significado ou sentido daquilo que se diz ou escreve. Aqui entram assuntos como o significado de "significado", referência, polissemia, sinonímia, domínio semântico, classes semânticas, etc.
Uma das principais discussões gira em torno do significado da palavra "significado". Como é que as palavras significam? Será que elas têm um significado inerente ou essencial, uma espécie de "Grundbedeutung"? Será que a etimologia revela o "sentido real" das palavras? Até se discute se as palavras têm significado ou se é o significado que tem as palavras. Essa questão foi proposta por Johannes R Louw, que afirma, em tom conclusivo: "o que as palavras têm a contribuir para a compreensão de uma comunicação é apenas uma pequena parcela do todo" (LOUW, 1991, p.130). Na verdade, perguntar se o sentido vem antes da palavra ou vice-versa pode parecer um simples jogo de palavras, mas a pergunta tem sua razão de ser. Aparentemente, o sentido, isto é, aquilo que se quer dizer, procura as palavras, e não vice-versa. Alguém vê algo, tem uma idéia, inventa um produto, e só então procura um significante (uma palavra) para expressar isso.

Etimologia

Quando se trata de descrever o significado de palavras, não raras vezes se apela para a etimologia, isto é, a origem e o desenvolvimento da palavra ou, então, aquilo que ela significava inicialmente. Já houve quem argumentasse que "sincero" vem do latim sine cera ("sem cera"), significando originalmente esculturas em que se podia confiar, isto é, que estavam intactas, que não haviam sido retocadas com cera! Menos fantasiosa é a explicação de "pensar" à luz do latim pensare ("pesar, calcular o peso"). Logo, pensar de fato significaria "avaliar (o peso)",
Em termos de Bíblia, não raras vezes se ouve dizer que pecado, por ser hamartía, é, de fato, "errar o alvo"; que glória, na Bíblia Hebraica, por ser kabôd, tem alguma coisa a ver com "peso"; que verdade significa "desocultamento", pois em grego é alétheia, que vem de alantháno ("desocultar"); que hypoméno ("perseverar") de fato significa "permanecer sob ou debaixo de"; que igreja vem de ekkaléo, significando, de fato, "os que foram chamados para fora", e assim por diante.

Esse tipo de argumentação tem lá o seu fascínio, especialmente quando feito a partir dos originais da Bíblia e o ouvinte ou leitor não tem acesso a essas línguas. Não raras vezes a etimologia é falsa, como no caso de "sincero". Por isso, o intérprete precisa estar atento para não incorrer na falácia etimológica, que consiste em insistir que as palavras sempre carregam consigo o sentido que tinham originalmente. Na verdade, a etimologia faz parte da história da palavra, mas não determina o seu significado em determinado contexto. Os antigos já diziam que o usus loquendi, isto é, o uso normal e contemporâneo das palavras, dentro do contexto, é que é determinante, e não a etimologia. Normalmente se entende o texto sem recurso à suposta etimologia das palavras.

Existe, no entanto, uma exceção à regra, ou seja, há momentos em que o intérprete precisa lançar mão da etimologia, pois é o único recurso disponível. Trata-se dos famosos hápax legómena, isto é, palavras que ocorrem uma só vez, ou seja, que não têm paralelo, especialmente paralelo fora da Bíblia. O exemplo clássico, no NT, é o adjetivo epioúsion, num dos pedidos do Pai-Nosso (Mt 6.11; Lc 11.3), que geralmente é traduzido por "de cada dia". Esse termo é único, ou seja, não encontra paralelo na língua grega antes do NT. Exemplos como epioúsion são bem mais freqüentes no hebraico bíblico, devido à limitação do corpus hebraico, ou seja, ao fato de a literatura hebraica antiga estar praticamente restrita aos textos bíblicos. Por isso, exercícios etimológicos são mais necessários e freqüentes na exegese do AT.

Traços semânticos

Normalmente, quando se busca o sentido de um termo, recorre-se ao dicionário. O que se encontra é outra palavra, um suposto sinônimo. Ou, então, identifica-se o referente, isto é, de quem ou do que se está falando. Significado também não é a idéia ou imagem mental que se tem de algo ou de alguém.
Uma das maneiras de definir significado é dizer que se trata de um conjunto de traços ou componentes semânticos. Este conjunto de traços semânticos está ligado a um símbolo verbal ou é expresso
através dele. Por exemplo: Qual o significado de "pai"? Pai reúne os seguintes traços semânticos: uma pessoa do sexo masculino, um adulto ou de uma geração anterior, que tem um vínculo direto de ordem biológica ou legal com a pessoa de referência (o filho ou a filha). Os aspectos de autoridade e proteção também podem fazer parte do significado de "pai".

O que os dicionários de hebraico bíblico e do grego do Novo Testamento geralmente fornecem são meros "equivalentes de tradução". Informam como se traduz determinada palavra ao português. Agora, não informam o significado da palavra em termos de traços semânticos. O problema é que esses equivalentes de tradução não são exatamente idênticos em línguas diferentes. Assim sendo, um tradutor da Bíblia para uma língua indígena, ao deparar-se com um equivalente de tradução num dicionário grego-português, ainda não sabe o que exatamente aquela palavra significa e a que se refere.

Vagueza

Palavras podem veicular um sentido genérico ou um significado mais específico. À luz da discussão anterior, quanto menos traços semânticos um termo tiver, mais amplo ou genérico será seu significado. É o caso de "móvel", por exemplo. Aumentando o número de traços ou componentes semânticos, o sentido fica mais estrito. "Mesa", por exemplo, é mais estrito do que "móvel", pois reúne, entre outros, os componentes adicionais de tampo horizontal, uso em refeições, etc.
O exemplo de móvel e mesa revela que os termos de um mesmo domínio semântico podem ser colocados numa relação de superordinação ou subordinação entre si. Os termos amplos tendem a estar no topo dessas classificações. São também os termos mais vagos, exatamente em função disso. Palavras como diakonía ("ministério") e kakía ("maldade") impressionam pela sua vagueza. Nesses momentos, o intérprete até gostaria que o texto fosse mais exato ou definido, mas nada muda o fato de que, ao selecionar termos assim, o autor, em geral, optou por ser vago. Cabe ao intérprete respeitar isso.

Referência e significado

Referência não é exatamente a mesma coisa que significado, por mais que tenha relação com o mesmo. Referência é o ato ou processo de designar certo ente ou acontecimento por meio de um símbolo ou signo verbal. Eugene A. Nida explica assim a diferença entre significado e referência:
o significado de uma palavra consiste no conjunto de aspectos distintivos que torna possível certos tipos de referência, ao passo que referência como tal é o processo de designar determinado ente ou acontecimento através de um símbolo específico. (LOUW, 1982, p.50)

Normalmente, quando se pergunta: "O que ele ou ela está querendo dizer?", pergunta-se pelo significado. Quando a pergunta é: "De quem ele está falando?", trata-se do referente.
Embora distintos, significado e referência não devem ser totalmente separados, pois sempre existe uma relação entre eles. Alguns exemplos talvez ajudem a esclarecer isto. Em Is 7.14, além da discussão em torno do significado de almáh ("virgem"), ainda existe o problema do referente. De quem o profeta está falando? Da rainha? De outra mulher? De uma jovem que surgiria mais tarde?

Em Mt 24.15, não há maiores problemas com o significado de "abominável da desolação", pois, segundo Louw e Nida (53.38), trata-se de "uma abominação, que tanto pode ser um objeto como um acontecimento, que torna impuro um santuário e, assim, faz com que o mesmo seja abandonado e fique desolado". A grande pergunta é: a que isto se refere?
Em Jo 6.53, a dificuldade maior não reside no significado das palavras, mas em determinar se a passagem se refere à Ceia do Senhor ou não. Em At 8.34, a dificuldade do eunuco dizia respeito ao referente, não ao significado de alguma palavra. Em Ef 2.8, muita teologia está em jogo, dependendo da definição do referente de "isto". No Apocalipse, a palavra grega drákon significa "dragão", mas refere-se ao diabo.

Já parákletos significa, conforme se lê no Louw e Nida, "auxiliador". Só que, no Evangelho de João (14.16, por exemplo), refere-se ao Espírito Santo e é traduzido por "Consolador" (ARA) ou "Auxiliador" (NTLH). Por outro lado, em 1Jo 2.1 refere-se a Cristo e é traduzido por "Advogado". O referente determina uma mudança de significado.
Em Mt 23.37 aparece, em única ocorrência no NT, o termo órnis. O significado é "ave", podendo ser ave doméstica ou não. Só que, no contexto de Mt 23, parece se referir a uma determinada ave doméstica e, portanto, é traduzido por "galinha". Algo semelhante acontece com topos (Jo 11.48), geralmente traduzido por "lugar", com o significado de "uma área que pode ter diferentes tamanhos, e em alguns contextos é considerada como um ponto no espaço" (LOUW e NIDA, 80.1). Nenhum dicionário registra o sentido de "Templo". Só que a NTLH, levando em conta o provável referente de tópos, traduz por "Templo".

Domínios semânticos

Num texto, existe a relação sintagmática ou combinatória entre os termos de um texto, ou seja, o arranjo dos termos no texto ou discurso, em que um não pode tomar o lugar do outro. Essa relação é importante, pois "impõe limites à escolha de significados possíveis e tende a moldar o significado de cada uma das palavras" (BLACK, 1988, p. 138). As mesmas palavras, com os mesmos componentes de significado, dispostas de forma diferente, darão um sentido totalmente diferente.
Além disso, existe também o eixo paradigmático, às vezes chamado de associativo ou substitutivo. A relação paradigmática é aquela que existe entre uma palavra e outra que não se encontra no texto, mas que, teoricamente, poderia ter sido escolhida no lugar daquela que lá está (THISELTON, 1977, p.83).

Uma palavra somente pode tomar o lugar de outra, em determinado contexto, se ambas tiverem em comum um ou mais traços semânticos. Ou seja, ambas precisam fazer parte do mesmo campo ou domínio semântico. Um domínio semântico é "uma área de experiência cultural definível que é coberta ou descrita por um elenco de termos ou palavras relacionadas" (NIDA e TABER, 1974, p.200).
Isto remete outra vez ao léxico de Louw e Nida, que está organizado por domínios semânticos. Os autores distribuíram todos os significados possíveis de todos os termos do Novo Testamento grego em 93 domínios semânticos, que vão desde "objetos e aspectos geográficos" (Domínio 1) até "nomes de pessoas e lugares" (Domínio 93). O Domínio 10, por exemplo, trata dos "termos de parentesco". O Domínio 33, tudo que diz respeito à "comunicação". O Domínio 43 é o da "agricultura".

Para que se tenha uma idéia mais concreta do que é um campo semântico, tomemos como exemplo o Domínio 3, que trata das plantas. No subdomínio B, que reúne onze itens (3.2-3.12), aparecem as plantas que são árvores. Ali são listadas déndron e xýlon, que são termos genéricos para "árvore". Na seqüência o leitor encontra sýke ("figueira"), sykáminos ("amoreira"), sykomoréa ("sicômoro"), phóinix ("palmeira"), eláia ("oliveira"), e algumas outras. Nota-se, de imediato, que as palavras não são listadas por ordem alfabética, pois o que interessa é a proximidade semântica. Ao contrário de outros dicionários, este pode ser lido como qualquer outro livro. Além disso, se alguém quiser fazer um estudo sobre as plantas do Novo Testamento, encontrará todas elas agrupadas no Domínio 3 do Louw e Nida.

A organização de domínios semânticos é importante, pois ajuda o intérprete a ter uma idéia das opções de que o escritor dispunha. Afinal, até certo ponto, significado é uma questão de escolha. A menos que conheça algumas das opções que o escritor tinha, o leitor não saberá que importância deverá dar ao fato de o escritor ter optado por determinado termo ou determinada forma.
Isto se aplica também ao aspecto verbal, especialmente no grego do Novo Testamento. O fato de um escritor ter escolhido uma forma de particípio aoristo só terá maior significado, caso se puder determinar que o escritor tinha outras possibilidades ao seu alcance e que preferiu optar pelo particípio aoristo. É possível que, dependendo do caso, fosse da índole da língua ou, então, preferência pessoal do escritor usar sempre aquela forma. Quem não é falante da língua terá dificuldades de emitir um parecer mais definitivo a respeito disso.

Um exemplo bem concreto da importância ou não das opções que um escritor tinha é Jo 21.15-17. Ali, existe uma alternância entre formas de dois verbos para "amar", no original grego. Jesus pergunta se Pedro o ama, usando o verbo agapáo. Pedro responde que ama Jesus, usando o verbo philéo. A diferença poderia ser expressa assim: "Você me ama de fato"? "Sim, eu o amo". Acontece que é da índole de João usar sinônimos alternadamente, para efeitos de variação estilística. Diante disso, a alternância entre agapáo e philéo não tem maior significado. Fica confirmada mais uma vez a importância fundamental do contexto.

Sinonímia

Palavras ou locuções que têm em comum vários traços ou componentes semânticos podem ser chamadas de sinônimas. Um sinônimo é uma palavra (sinonímia lexical) ou locução (sinonímia estrutural) que, em determinados contextos, pode tomar o lugar de outra palavra ou expressão, sem que, naqueles contextos, mude significativamente aquilo que se está a dizer (NIDA e TABER, pp.73 e 207).
Sinonímia, no entanto, não é o mesmo que co-referência. Co-referentes são as palavras que são ou podem ser aplicadas simultaneamente ao mesmo referente. Um exemplo é o uso de "fé" onde se espera "evangelho", em alguns contextos das epístolas paulinas. "Fé" e "evangelho" não têm o mesmo significado; apenas são aplicados simultaneamente ao mesmo referente (COTTERELL e TURNER, 1989, p.161).

Polissemia

A polissemia é um fenômeno lingüístico universal, ou seja, ocorre em todas as línguas, e contribui para o que se chama de "economia lingüística". Se um mesmo signo ou uma mesma palavra pode expressar vários significados, existe economia de palavras sem prejuízo maior para a comunicação. A polissemia permite que se diga muito com o uso de poucas palavras. O léxico do NT é um exemplo disso. São ao todo perto de 5.500 itens lexicais ou vocábulos, que expressam, no mínimo, 15.000 significados diferentes. Isto é, com 5.500 palavras pode-se "dizer" 15.000 coisas diferentes. O termo grego pístis pode significar "prova ou certeza" (At 17.31), "fé" (Rm 4.13), "fidelidade" (Rm 3.3), "doutrina" (Gl 1.13), "compromisso" (1Tm 5.12). Até preposições, conjunções e interjeições podem ser polissêmicas, isto é, veicular mais do que um significado.

Em termos técnicos, ocorre polissemia quando dois ou mais significados são associados a uma mesma palavra. Isto significa que, num dicionário semântico, uma mesma palavra vai aparecer em diferentes domínios semânticos. Pístis, por exemplo, aparece no domínio semântico da fé (Domínio 31, no Louw e Nida), pois expressa os conceitos de "fé" e "fidelidade". No entanto, por expressar a noção de "compromisso" ou "promessa", aparece também no Domínio 33, "Comunicação".
É quase desnecessário acrescentar que o fenômeno da polissemia aumenta a ambigüidade de textos, ou seja, dificulta a tarefa do intérprete, que precisa determinar o significado da palavra toda vez que ela ocorre. Geralmente o contexto mostra qual dentre os diferentes significados possíveis é o que se tem em vista em determinado texto (MITCHELL, p.130).

Na prática, isto significa que palavras com grafia totalmente diferente podem ter mais em comum do que os diferentes sentidos de uma mesma palavra. Por exemplo, pneuma ("Espírito") e parákletos ("Auxiliador", usado em referência ao Espírito Santo) têm mais em comum do que pneuma como "Espírito" e pneuma como "vento". À luz disso, pode-se questionar o enfoque adotado pelo Theological dictionary of the New Testament (TDNT), que faz um estudo de palavras, seguindo uma ordem alfabética. Este dicionário teológico discute a relação entre "Espírito" e "Vento", e só chega ao "Auxiliador" porque este é identificado como o "Espírito da verdade". Claro, o TDNT foi concebido numa época em que não se tinha a sofisticação lingüística que hoje se tem. Já o Novo dicionário internacional de teologia do Novo Testamento (NDITNT), escrito em época mais recente, supera essas dificuldades, na medida em que trabalha mais com conceitos do que com palavras. Por exemplo, sob "Jesus Cristo, Nazareno, Cristão" aparecem os termos gregos Iesoûs, Nazarenos, Christós, e Christianós. Em outras palavras, termos que, no TDNT, são considerados em volumes separados, aparecem todos no mesmo artigo e volume do NDITNT.

Transferencia ilegítima da totalidade

Esta prática, também chamada de "adoção injustificada de um campo semântico expandido" (CARSON, 1992, p.57), consiste em aplicar ou transferir a determinado uso de uma palavra todos os significados que a mesma pode ter ou já teve. Um exemplo disso seria tomar um texto qualquer em que aparece o termo pístis (Hb 11.1, por exemplo) e fazer uma exegese ou uma pregação desse texto, apresentando cinco tópicos: os cinco diferentes significados da palavra grega pístis! Em termos homiléticos, isso até seria aceitável; como exegese, é condenável.

Classes gramaticais e classes semânticas

Há uma diferença entre classes gramaticais e classes semânticas. Do ponto de vista gramatical, as palavras são substantivos, verbos, adjetivos, advérbios, etc. Do ponto de vista semântico, são agrupadas em quatro categorias: objetos, acontecimentos, abstratos e relações. Objetos sao seres ou coisas. Os acontecimentos incluem todos os tipos de atividades, ações ou processos. Os abstratos descrevem as qualidades ou capacidades dos objetos e/ou acontecimentos. Aqui entram, em termos gramaticais, os adjetivos e advérbios. As relações mostram as conexões significativas que existem entre as outras três categorias. Preposições e conjunções tendem a entrar nesta quarta categoria.

Essa classificação é muito importante para se entender uma tradução como a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). Outras traduções tendem a traduzir substantivos por substantivos, verbos por verbos, e assim por diante. A NTLH, que tem um embasamento semântico, entende que substantivos como fé, amor, e tantos outros, são acontecimentos, isto é, "Verbos", quando vistos numa perspectiva semântica. A fé é, de fato, um acontecimento, um ato. Não é um objeto ou um ente. É o ato de crer. Logo, há momentos em que pístis pode ser traduzido por "crer".

O dicionário de Louw e Nida, além de operar com 93 domínios semânticos, está estruturado segundo essas quatro categorias. Os primeiros doze domínios semânticos reúnem objetos ou entes. "Plantas" (3), "animais" (4), "comida e condimentos" (5), "artefatos" (6), "construções" (7), "pessoas" (9), "seres e poderes sobrenaturais" (12) fazem parte da categoria dos objetos ou entes.Os acontecimentos aparecem nos domínios 13-57, e incluem desde "vir a ser" (13), "aprender" (27), "pensar" (30), "festas" (51), "atividades militares" (55), até "possuir, transferir, trocar" (57).
Os abstratos estão agrupados nos domínios 58-91. Aqui, aparecem títulos como "natureza, classe, exemplo" (58), "comparação" (64), "orientação espacial" (82), "peso" (86), etc. As relações estão no domínio 92. O domínio 93 é o dos nomes de pessoas e lugares.

A importância das palavras

Explicar ou interpretar textos bíblicos significa, antes de mais nada, entender palavras, frases, parágrafos, e textos.Tudo começa pela palavra. A própria Bíblia dá exemplos de como, em certos momentos, uma palavra tem importância fundamental. Em Gl 3.16, Paulo argumenta com o singular de "descendente". Em Rm 9.22-23, é muito importante observar que não existe um "anteriormente" junto a "vasos de ira", apenas com "Vasos de misericórdia".

Agora, a exegese não termina na palavra. É preciso ir das partes (as palavras) para o todo (o texto). Assim como um time de futebol é mais do que simplesmente onze jogadores, um texto é mais do que a soma das palavras individuais. É claro, existe um constante vaivém, das palavras para o todo, do todo para as palavras. Mas tudo começa com a palavra.