CRÍTICA DO PREMILENISMO DISPENSACIONALISTA


(Por Anthony Hoekema)

Embora o tema principal deste capítulo seja o de oferecer uma crítica do premilenismo dispensacionalista, poderíamos iniciar mencionando alguns aspectos do ensino dispensacionalista que apreciamos. Apreciamos a aceitação da inspiração verbal e infabilidade da Bíblia pelos dispensacionalistas. Ficamos gratos em observar que os dispensacionalistas aguardam um retorno pessoal e visível de Cristo. Reconhecemos gratamente sua insistência de que, em cada era, a salvação é apenas pela graça, baseada nos méritos de Cristo. Concordamos também, com os dispensacionalistas, em aguardar uma etapa futura do Reino de Deus que envolverá a terra, na qual Cristo reinará e Deus será tudo em todos. Embora esperemos ver este Reino no estado final, e apesar de a nossa maneira de compreender o futuro Reino diferir da deles, nós, efetivamente, concordamos em que haverá na terra um Reino futuro de tal espécie.

Já foram abordados criticamente dois aspectos do premilenismo dispensacionalista e, por causa disso, não voltaremos a discuti-los: a Segunda Vinda em duas etapas, e a compreensão dispensacionalista do arrebatamento da igreja.
Nem é necessário dizer que a crítica que se segue não será exaustiva. Durante os últimos quarenta anos, vários livros apareceram contendo abordagens críticas acerca da teologia e Escatologia dispensacionalista de que a que oferecemos aqui. O que se segue é uma crítica dos oito pontos principais do tipo de dispensacionalismo descritos anteriormente.

(1) O dispensacionalismo não faz jus inteiramente à unidade básica da revelação bíblica. Já vimos anteriormente que a New Scofield Bible (Nova Bíblia de Scofield) divide a história bíblica em sete dispensações distintas. A definição de uma dispensação encontrada nesta Bíblia é a seguinte: “Um período de tempo durante o qual o homem é testado em relação à sua obediência e alguma revelação específica da vontade de Deus” . Apreciamos a insistência dos editores da New Scofield Bible de que, em cada dispensação, há apenas uma base para a salvação: pela graça de Deus através da obra de Cristo realizada na cruz e vindicada em sua ressurreição. Ficamos igualmente gratos por sua afirmação de que as diferenças entre as dispensações não se aplicam ao modo de salvação.

Entretanto, se é verdadeiro que em cada dispensação o homem precisa ser salvo pela graça, não implicará isto em que o homem, em cada dispensação, seja inteiramente incapaz de obedecer à vontade de Deus perfeitamente, e dessa forma incapaz de salvar a si próprio através de seus próprios esforços? Por que então o homem necessita de ser testado novamente em cada dispensação (conforme a definição de dispensação citada acima)? Não é verdade de que o homem foi testado por Deus bem no princípio, no Jardim do Édem? Não é verdade que ele fracassou naquele teste? E não é por essa razão que a salvação pela graça é agora sua única esperança? Ao invés de precisar ser testado repetidamente, conforme implica a teologia dispensacionalista, o de que o homem necessita não será que se lhe mostre, em cada era de sua existência, como ele pode ser libertado de sua impotência espiritual e ser salvo pela graça?

Na verdade, isso é que nós encontramos da Bíblia. Imediatamente após a queda do homem, Deus veio a ele com a promessa de um redentor através de quem ele poderia ser salvo (Gn 3.15). Esta promessa de redenção, através da semente da mulher, torna-se agora o tema de toda a história da redenção, do Gênesis ao Apocalipse. O conteúdo central das escrituras trata do modo como o homem pode salvar-se através de Jesus Cristo em todos os diversos períodos da história de sua existência. Apesar das diferenças na administração, existe apenas uma aliança de graça que Deus faz com seu povo. O Antigo Testamento trata do período de sombras e tipo, enquanto que o Novo Testamento descreve o período de cumprimentos, mas a aliança da graça é uma em ambas estas eras.

Por causa disso, uma grande dificuldade com o sistema dispensacionalista é que nele as diferenças entre os diversos períodos da história da redenção parecem preponderar sobre a unidade básica dessa história. Passamos agora a observar uma importante implicação deste ponto. Quando não se faz completamente jus à unidade das maneiras redentoras com que Deus lida com a humanidade, e quando se faz distinções rígidas entre as diversas dispensações, existe o perigo de não se conseguir reconhecer os avanços cumulativos e permanentes que marcam os modos de Deus lidar com seu povo na era do Novo Testamento. Por exemplo, aprendemos do Novo Testamento que o muro de divisão ou hostilidade que, anteriormente, divida gentios e judeus foi removido permanentemente por Cristo (Ef.214,15). Baseados no ensino desta passagem e de outras similares, perguntamos aos dispensacionalistas: Por que, então, vocês ainda postulam um tipo de separação entre judeus e gentios, no milenio, pois os judeus terão uma posição favorecida naquele período e serão exaltados acima dos gentios? A resposta dispensacionalista, presumo eu, seria mais ou menos esta: “O muro de separação, entre judeus e gentios, é removido durante a pressente Era da Igreja, enquanto Deus está agora congregando sua Igreja dentre ambos, judeus e gentios. Mas o milênio será uma dispensação diferente - na qual as promessas feitas e Israel, durante uma dispensação anterior, serão cumpridas”. O problema com esta reposta dispensacionalista, porém, é que, por causa das exigências do esquema dispensacionalista, precisa-se desconsiderar aquilo que o Novo Testamento diz acerca da remoção do muro de separação entre judeus e gentios. O princípio da descontinuidade entre uma dispensação e outra predominou aqui e, virtualmente, anulou o princípio da revelação progressiva.

(2) O ensino de que Deus tem um propósito separado para Israel e outro para a igreja é um erro. Conforme vimos acima, um dos princípios determinantes da teologia dispensacionalista é que existe uma distinção fundamental e permanente entre Israel e igreja. os dispensacionalistas dizem: Israel e a Igreja têm sempre de ser mantidos separados. Quando a Bíblia fala sobre Israel, ela não se refere à Igreja, e quando a Bíblia fala acerca da Igreja ela não se refere a Israel. Uma vez que existem várias promessas do Antigo Testamento a Israel, promessas que não foram cumpridas, elas ainda terão de ser cumpridas no futuro.

Antes de tudo, temos de desafiar a declaração segundo a qual quando a Bíblia fala acerca de Israel, ela nunca se refere à Igreja, e que, quando ela fala acerca da igreja, ela sempre pretende excluir Israel. Na verdade, o próprio Novo Testamento, freqüentemente, interpreta expressões relacionadas com Israel de um modo a aplicá-las à Igreja do Novo Testamento, que inclui tanto judeus como gentios.
Passemos a observar três desse conceitos: primeiro, o termo Israel. Existe pelo menos uma passagem do Novo Testamento onde o termo Israel é usado de forma a incluir os gentios, e por causa disso, significando toda a Igreja do Novo Testamento. Falo de Gálatas 6.15,16: “Nem a circuncisão nem a incircuncisão significam coisa alguma; o que vale é a nova criação. Paz e misericórdia a todos os que seguem esta regra, ou seja, o Israel de Deus”(NIV). A quem se refere a expressão “todos seguem esta regra”? Obviamente, a todos aqueles que são novas criaturas em Cristo, para quem nem a circuncisão nem a incircuncisão significam coisa alguma. Isto teria de incluir todos os crentes verdadeiros, judeus e gentios. O que se segue em grego é kai epi ton Israel tou theou. John F. Walvoord, um escritor dispensacionalista, insiste em que a palavra kai deve ser traduzida por e, de modo que “o Israel de Deus” se refere aos judeus crentes8. O problema com esta interpretação é que os crentes judeus já foram incluídos pelas palavras “todos que seguem esta regra”. A palavra kai, portanto, deveria ser aqui traduzida por ou, seja, conforme o fez a versão New International. Quando a passagem é entendida deste modo, “o Israel de Deus” é uma descrição adicional de “todos os que seguem esta regra” - isto é, todos os verdadeiros crentes, incluindo tanto judeus e gentios, que constituem a Igreja do Novo Testamento. Em outras palavras, Paulo aqui está claramente identificando a igreja como o verdadeiro Israel. Isto implicaria em que as promessas que tinham sido feitas a Israel, durante a época do Antigo Testamento, são cumpridas na Igreja do Novo Testamento.

Existem vários outros modos pelos quais o Novo Testamento faz o que acabamos de discutir. Considere, por exemplo, o que Paulo disse aos judeus reunidos na sinagoga de Antioquia, da Pisídia: “Nós vos anunciamos o Evangelho de que aquilo que Deus prometeu aos pais, isto ele cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus... E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi... Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncie remissão de pecados por intermédio destes; e por meio dele todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés” (Atos 13.32-34, 38,39). Observe-se que, conforme essas palavras, as promessas de Deus aos pais foram cumpridas na ressurreição de Jesus, e que nessa ressurreição Deus deu, a seu povo do Novo Testamento, “as fiéis promessas de Davi”. Estas promessas e bênçãos, além disso, são interpretadas como indicando não um futuro Reino judaico no milênio, mas sim perdão de pecados e salvação. Por causa disso, as promessas feitas a Israel são cumpridas na Igreja do Novo Testamento.

Ainda outro modo no qual podemos ver que a Igreja do Novo Testamento é o cumprimento do Israel do Antigo Testamento é observando 1 Pedro 2.9: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (variante: um povo para sua possessão), a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Pedro endereça sua epístola “aos forasteiros da Dispersão, no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1.1). Embora a palavra dispersão seja freqüentemente aplicada aos judeus, fica evidente, a partir do conteúdo desta epístola, que Pedro estava escrevendo aos cristãos nestas províncias, muitos dos quais, senão a maioria deles, eram gentios. Portanto, Pedro está se dirigindo aos membros da Igreja do Novo Testamento.

Ao olharmos cuidadosamente para 1 Pedro 2.9, observamos que Pedro está aplicando aqui, à Igreja do Novo Testamento, expressões que são utilizadas no Antigo Testamento para descrever Israel. As palavras “raça eleita” são aplicadas ao povo de Israel em Isaías 43.20. As expressões “sacerdócio real, nação santa” são utilizadas para descrever o povo de Israel em Êxodo 19.6. As palavras “povo de propriedade exclusiva de Deus” ou “um povo para sua possessão” são aplicadas ao povo de Israel em Êxodo 19.510. Portanto, Pedro está dizendo aqui, na clareza de suas palavras, que aquilo que o Antigo Testamento disse acerca de Israel, pode agora ser dito acerca da Igreja. O povo de Israel não deve ser considerado como constituindo exclusivamente a raça eleita - a Igreja judaico-gentílica é agora a raça eleita de Deus. Os judeus do Antigo Testamento não são mais a nação santa de Deus - agora toda a Igreja deve ser assim denominada11. Israel, em si, não é mais “um povo para a possessão de Deus” - estas palavras têm agora de ser aplicadas a toda a Igreja do Novo Testamento. A partir das passagens de que acabamos de tratar, não ficará abundantemente claro que a Igreja do Novo Testamento é, agora, o verdadeiro Israel, no qual e através do qual as promessas feitas ao Israel do Antigo Testamento estão sendo cumpridas?

Passamos agora a examinar a expressão descendência de Abraão. Embora, com certeza, esta expressão seja geralmente usada no Antigo Testamento para designar os descendentes naturais de Abraão, o Novo Testamento amplia o significado deste termo de modo a incluir os gentios crentes. Veja-se por exemplo, Gálatas 3.28,29: “Não há nem judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. Se vós pertencerdes a Cristo, então sois descendentes de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” (NIV). O que é indubitavelmente claro aqui é que todos os crentes do Novo Testamento, todos os que pertencem a Cristo, todos os que foram revestidos de Cristo (v.27), são descendência de Abraão - não no sentido natural, com certeza, mas num sentido espiritual. Novamente, vemos a identificação da Igreja no Novo Testamento como o verdadeiro Israel, e de seus membros como os verdadeiros herdeiros da promessa feita a Abraão.

As palavras Sião e Jerusalém são geralmente usadas pelo Antigo Testamento para indicar um dos montes onde se situava Jerusalém, a capital dos israelitas ou o povo de Israel em geral. Novamente percebemos que o Novo Testamento amplia a compreensão destes termos. O autor de Hebreus escreveu a seus leitores cristãos: “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e às incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aso espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador de Nova Aliança...” (Hb 12.22-24).

Obviamente, “monte Sião” e “a Jerusalém celestial” representam um grupo de santos redimidos incluindo tanto judeus como gentios. Certamente também, a “nova Jerusalém”, que João vê “descendo do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo” (Ap.21.2), é muito mais abrangente do que a idéia de limitar-se apenas aos judeus crentes. Por causa disso, o termo Jerusalém, utilizado no Antigo Testamento a respeito do povo de Israel, é utilizado no Novo Testamento, incluindo toda a igreja de Jesus Cristo. Concluímos, então, que a argumentação dispensacionalista, de que quando a Bíblia fala sobre Israel ela nunca se refere à Igreja, não está em harmonia com as Escrituras.

Nossos amigos dispensacionalistas, porém, poderão responder ao que foi dito acima, contra-argumentando que o Novo Testamento, efetivamente, várias vezes menciona os judeus como distintos dos gentios. Concordo com esta afirmação. Seria fácil ilustrar este argumento. No livro de Romanos, Paulo freqüentemente utiliza a expressão: “primeiro do judeu e também do grego” (1.16; 2.9,10; cp.3.9,29). Em Romanos 9.11 o termo Israel é utilizado onze vezes; em cada vez se refere aos judeus como distintos dos gentios. Em Efésios 2.11-22, Paulo mostra que Deus fez gentios e judeus membros co-participante da família de Deus, tendo derrubado a parede de hostilidade (ou separação_ que estava entre eles; contudo, toda a discussão seria sem sentido se Paulo não estivesse fazendo distinção entre judeus e gentios.

Todavia, o fato de o Novo Testamento freqüentemente mencionar os judeus como distintos dos gentios não implica, de forma alguma, que Deus tenha um propósito para a Igreja, conforme afirmam os dispensacionalistas. O Novo Testamento deixa bem claro que Deus não tem esse propósito, em separado, para Israel.
Na passagem de Efésios, a que acabamos de nos referir, Paulo mostra claramente que o muro intermediário de separação, entre judeus crentes e gentios crentes, foi derrubado (Ef 2.14), que Deus reconciliou judeus e gentios consigo mesmo em um corpo através da cruz de Cristo (2.16), e que, por causa disso, os gentios crentes pertencem (2.19). Qualquer idéia de um propósito separado para judeus crentes está excluída aqui. Como poderá esta unidade de judeu e gentio, que é um resultado permanente da morte de Cristo na cruz, ser colocada de um lado numa dispensação ainda porvir?

Os dispensacionalistas apelam freqüentemente para Romanos , como ensinando um período futuro de bênçãos separado para Israel. Este apelo é feito especialmente com base nos versos 25 até 27. Já foi fornecida anteriormente evidência para a posição de que Romanos 11.26 (“e assim todo o Israel será salvo”) não ensina necessariamente, uma conversão futura da nação de Israel. Devemos agora acrescentar que, mesmo se alguém estivesse inclinado a entender esta passagem como ensinando tal futura conversão nacional de Israel, esse alguém, ainda assim, teria de admitir que Romanos 11 não diz coisa alguma relativa a Israel ser novamente congregado em sua terra, nem acerca de um futuro governo de Cristo sobre um Reino milenar israelita.
Na verdade, existem indicações claras, em Romanos 11, de que o propósito de Deus para Israel nunca deve ser separado de seu propósito para os gentios crentes. Nos versos 17 a 24, Paulo descreve a salvação dos israelitas utilizando a idéia de eles serem re-enxertados em sua própria oliveira. A salvação dos gentios, porém, é descrita, nesta passagem, sob a figura de seu enxerto na mesma oliveira na qual os judeus estão sendo enxertados. A comunidade do povo crente de Deus, portanto, não está retratada aqui em termos de duas oliveiras, uma para judeus e uma para gentios, mas sim falando de uma oliveira só onde tanto judeus como gentios estão sendo enxertados. Sendo este o caso, como poderia Paulo nos ensinar aqui que Deus ainda tem um propósito, em separado, para os judeus e um futuro, em separado, para Israel?

Podemos destacar mais um ponto. Desde o princípio, o propósito de Deus para Israel não era de que, no futuro, Israel devesse ser recipiente de privilégios especiais negados aos gentios, mas antes, que Israel deveria ser uma bênção a todos os povos do mundo, pois de Israel deveria nascer o salvador da humanidade. Quando Deus primeiramente chamou Abraão de Ur dos Caldeus, ele lhe disse: “De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome... em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn.12.2-3, ASV). Em Gênesis 22.18 é acrescentada a idéia da descendência: “E em tua descendência todas as nações da terra serão benditas”(ASV). Vemos este grande propósito de Deus para Israel ser cumprido no livro do Apocalipse, que descreve da seguinte maneira o Cordeiro no capítulo 5: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhes os selos, porque foste morte e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (v.9). o Cordeiro, descendente de Abraão, resgatou uma vasta multidão comprada por sangue dentre cada tribo e nação sobre a terra - este era o propósito de Deus para Israel. No vigésimo primeiro capítulo do Apocalipse, João descreve a cidade santa, a nova Jerusalém, que desceu dos céus à terra. Sobre suas portas estão escritos os nomes das doze tribos de Israel, enquanto que nos seus doze fundamentos estão escritos os nomes dos doze apóstolos (vs.12-14). Esta comunidade de redimidos do tempo do fim representa tanto o povo de Deus do Antigo Testamento (as doze tribos) como a Igreja do Novo Testamento (os doze apóstolos). Dessa forma, o propósito de Deus para Israel é agora final e totalmente realizado.

Sugerir que Deus tenha em mente um futuro em separado para Israel, diferente do futuro que ele planejou para os gentios, na verdade vai contra o propósito de Deus. É como levantar novamente os andaimes depois de a construção ter sido terminada. É como fazer o relógio da história voltar aos tempos do Antigo Testamento. É impor a separação do Antigo Testamento sobre o Novo Testamento, e ignorar o progresso da revelação. O propósito atual de Deus, para Israel, é que Israel creia em Cristo como seu Messias, e dessa forma se torne parte da comunidade única do povo redimido de Deus, que é a Igreja.

Não haverá, então, nenhum futuro para Israel? Naturalmente que há! Mas o futuro dos israelitas crentes não deve ser separado do futuro dos gentios crentes. A esperança de Israel, para o futuro, é exatamente a mesma dos gentios crentes: salvação e glorificação ulterior através da fé em Cristo. O futuro de Israel não deve ser visto em termos de um reino político na Palestina, que dure mil ano, mas sim como uma felicidade eterna compartilhada com todo o povo de Deus na nova terra glorificada.

(3) O Antigo Testamento não ensina que haverá um futuro Reino milenar terreno. Os dispensacionalistas encontram evidência para o futuro reino milenar de Cristo em muitas passagens do Antigo Testamento. Quando se examinam os títulos de seções e capítulos da New Sofield Bible (A Nova Bíblia de Scofield), percebe-se que várias seções do Antigo Testamento são interpretadas como descrevendo o milênio. Na verdade, porém, o Antigo Testamento não diz coisa alguma acerca deste reino milenar. As passagens geralmente interpretadas como descrevendo o milênio, descrevem de fato a nova terra, que é a culminação da obra redentiva de Deus.
Vejamos algumas destas passagens. Começamos com Isaías 65.17-25. O título da New Scofield Bible por cima do verso 17 diz: “Novos céus e nova terra”. Entretanto, o título acima dos versos 18 e 25 é: “Circunstâncias do milênio na terra renovada, removida a maldição”. Parece que os editores desta Bíblia, embora compelidos a admitir que o verso 17 descreve a nova terra final, restringem o significado dos versos 18-25 a uma descrição do milênio que deve preceder a nova terra. Porém, só se pode encontrar uma descrição do milênio, nesta passagem, se deliberadamente omitirmos o que é dito nos versos 17 a 19. O verso 17 fala, inequivocamente, acerca dos novos céus e nova terra (que o livro de Apocalipse reconhece como marcando o estado final; ver Ap.21.1). O verso 18 convoca o leitor a “exultar-se perpetuamente” - não somente por mil anos - nos novos céus e nova terra recém-mencionados. Isaías não fala aqui acerca de uma existência que não durará mais que mil anos, mas sim acerca de uma felicidade eterna! O que se segue, no verso 19, acrescenta outro detalhe que, em Apocalipse 21.4, é uma marca do estado final: “Nunca mais se ouvirá nela [a nova Jerusalém] nem voz de choro nem de clamor”.

Que indicação há, na passagem, de que Isaías mude de uma descrição do estado final para uma descrição do milênio? A resposta dos dispensacionalistas: veja o verso 20: “Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus; porque morrer aos cem anos é morrer ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado”. Uma vez que a morte é mencionada neste verso, dizem os dispensacionalistas, esta não pode ser uma descrição da nova terra final, mas tem de se aplicar ao milênio.
Temos de admitir que este é um texto difícil de se interpretar. Estará Isaías nos dizendo aqui que haverá morte na nova terra? Em minha opinião, esta não pode ser sua intenção, à luz do que ele acabou de dizer no verso 19: “Nunca mais se ouvirá nela [a Jerusalém que está sendo descrita] nem voz de choro nem de clamor”. Pode alguém imaginar uma morte desacompanhada de choro? É significativo que, no capítulo 25.8, Isaías claramente prediz que não haverá morte para o povo de Deus no estado final, conectando esta predição com a promessa de que não haverá lágrimas: “Ele [o Senhor dos Exércitos] tragará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos...”

À luz disso, eu concluo que Isaías, no verso 20 do capítulo 65, está retratando, em linguagem figurada, o fato de que os habitantes da nova terra viverão vidas incalculavelmente longas. Nas primeiras duas cláusulas do verso ele nos diz que nesta nova terra não haverá mortalidade infantil, e que as pessoas idosas não morrerão antes de terem completado sua tarefa de vida (em outras palavras, não serão retiradas prematuramente como é freqüentemente o caso na terra atual). A terceira cláusula eu traduziria como a NIV14 o faz: “aquele que morre aos cem será considerado apenas um moço”. Uma vez que a palavra traduzida por quem pecar indica alguém que errou o alvo, eu optaria novamente pela tradução da NIV: “aquele que não alcança cem anos será considerado maldito” . Não está implicando que, na nova terra, haverá alguém que não atingirá cem anos. Em apoio a essa interpretação no verso 20, estão as palavras do verso 22: “Porque a longevidade do meu povo será como a da árvore, e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras das suas próprias mãos”.
Esta passagem, portanto, não precisa necessariamente ser interpretada como descrevendo o milênio, e tem sentido claro quando entendida como uma figura inspirada da nova terra que está por vir. O verso 25 indica que não haverá violência naquela nova terra: “Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor”.

Passamos, agora, a observar outra passagem de Isaías, o capítulo 11.6-10. O título da New Scofield Bible, para os versos 1 até 10 diz: “O reino davídico a ser restaurado por Cristo: seu caráter e extensão”. Em outras palavras, esta Bíblia interpreta a passagem como sendo uma descrição do milênio. Os versos 6 a 10 fornecem um retrato encantador de um novo mundo onde “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito”. O verso 9 diz: “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar”.

Concordo com os dispensacionalistas em que esta passagem não deveria ser interpretada como retratando um céu em algum lutar solto no espaço; ela descreve inequivocamente a terra. Mas, por que deveria ela ser considerada como retratando o estado do milênio? Não fará ela até melhor sentido se entendermos estas palavras como uma descrição da nova terra final? Na verdade, as palavras “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” não são uma discussão acurada do milênio, pois durante o milênio haverá aqueles que não conhecem ou não amam ao Senhor, alguns dos quais serão congregados juntamente no final dos mil anos para um assalto final contra o acampamento dos santos. Entretanto, estas palavras realmente descrevem acuradamente a nova terra.
Passemos agora a Ezequiel 40 a 48. A New Scofield Bible introduz estes capítulos com os seguintes títulos: “O Tempo do Milênio e seu Culto”(40.1 a 47.12) e “A Divisão da Terra Durante a Era Milenar” (47.13 a 48.35). Estes capítulos contêm uma visão do templo que deveria ser reconstruído pelos cativos que voltassem da Babilônia. Uma descrição elaborada do templo de suas medias é fornecida, bem como dos vários sacrifícios que devem ser oferecidos no templo: ofertas pelo pecado, ofertas por transgressão, ofertas de holocausto e ofertas pacíficas. Os dispensacionalistas dizem que estes capítulos profetizam a reconstrução do templo de Jerusalém durante o milênio, e a adoração que então acontecerá neste templo milenar.

Obviamente, estes capítulos retratam um futuro glorioso para os israelitas que estão no cativeiro na época em que Ezequiel está escrevendo. Este futuro é descrito nos termos do ritual religioso que seria familiar a estes israelitas: a saber, o de um templo e seus sacrifícios. Mas a questão é: Será que todos estes detalhes têm de ser entendidos literalmente e aplicados literalmente à era milenar?
A maior dificuldade com tomarmos estes detalhes literalmente é causada pelo sacrifício de animais. Haverá qualquer necessidade de continuarmos oferecendo sacrifícios sangrentos de animais após Cristo ter feito seu sacrifício final, para quem as ofertas do Antigo Testamento apontavam no futuro? A resposta comum, que os dispensacionalistas fornecem a esta objeção, é que durante o milênio estes serão sacrifícios memoriais, sem valor expiatório16. Mas, qual seria o objetivo de voltarmos para os sacrifícios de animais como memorial da morte de Cristo, após o próprio Senhor ter-nos dado um memorial de sua morte na Ceia do Senhor?

É de extrema significância a nota da página 888 da New Scofield Bible, que sugere o seguinte como uma possível interpretação dos sacrifícios mencionados nestes capítulos da profecia de Ezequiel: “A referência aos sacrifícios não deve ser tomada literalmente, em vista da remoção de tais oferendas, mas deve antes ser considerada como uma apresentação da adoração do Israel redimido, em sua própria terra e no templo milenar, utilizando os termos com que os judeus estavam familiarizados nos dias de Ezequiel”. Estas palavras transmitem uma concessão de grande alcance da parte dos dispensacionalistas. Se os sacrifícios não devem ser tomados literalmente, por que deveríamos nós entender o templo literalmente? Parece que o princípio dispensacionalista da interpretação literal da profecia do Antigo Testamento foi abandonado aqui, e que uma pedra fundamental crucial para todo o sistema dispensacionalista foi aqui posta de lado!

Ezequiel não dá indicação alguma, nestes capítulos, de que ele esteja descrevendo algo que deva acontecer durante um milênio que preceda o estado final. Uma interpretação destes capítulos, que está de acordo com o ensino neotestamentário e que evita o absurdo de postular a necessidade de sacrifícios memoriais de animais no milênio, interpretará Ezequiel como descrevendo aqui o futuro glorioso do povo de Deus na era porvir, nos termos que os judeus daqueles dias compreenderiam. Uma vez que a adoração anterior a seu cativeiro estava centrada no templo de Jerusalém, é compreensível que Ezequiel descreva sua felicidade futura, retratando um templo com seus sacrifícios. Os detalhes acerca do templo e dos sacrifícios não devem ser entendidos literalmente, mas sim figuradamente. De fato, os últimos capítulos do livro do Apocalipse fazem eco à visão de Ezequiel. Em Apocalipse 22, lemos acerca da contraparte do rio que Ezequiel viu brotando no templo, cujas folhas servirão para a cura (cap.47.12): “Então me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio está a árvores da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos”. O que encontramos, em Ezequiel 40 a 48, portanto, não é uma descrição do milênio, mas sim um retrato do estado final na nova terra, nos termos do simbolismo religioso com que Ezequiel e seus leitores estavam familiarizados.

Examinemos mais uma passagem do Antigo Testamento, Isaías 2.1-4 (cp.Miquéias 4.1-3). O título da New Scofield Bible sobre Isaías 2.1 diz: “Uma visão do reino vindouro”. Portanto, esta passagem é considerada como sendo uma descrição do milênio. No verso 4, porém, lemos o seguinte: “Estes converterão as suas espadas em relhas de arados, e suas lanças em podadeiras: uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra”. Esta predição, entretanto, não se encaixa no milênio dos dispensacionalistas. A guerra não é totalmente eliminada dessa dispensação, pois haverá uma ataque final contra o acampamento dos santos. Somente na nova terra é que esta parte da profecia de Isaías será totalmente cumprida. Os versos 2 e 3 retratam a jubilosa participação de todas as nações na adoração do único Deus verdadeiro. Concluímos que este é um retrato inspirado, não do Reino milenar, mas sim das condições da nova terra.

Portanto, não há razão obrigatória para entendermos este tipo de passagens do Antigo Testamento, como as que acabamos de tratar, de modo a descrever um reino milenar futuro. Geralmente os dispensacionalistas dizem que nós, amilenistas, espiritualizamos profecias deste tipo, por entendê-las como sendo cumpridas ou na Igreja desta era atual, ou nos céus da era porvir17. Entretanto, eu creio que as profecias deste tipo não se referem primariamente nem à Igreja desta era, nem aos céus, mas à nova terra. Por causa disso, o conceito da nova terra é de grande importância para uma abordagem adequada à profecia do Antigo Testamento, infelizmente, muito freqüentemente os exagetas amilenistas não têm em mente o ensino bíblico acerca da nova terra, quando interpretam profecias do Antigo Testamento. Aplicar estas passagens somente à Igreja ou aos céus consiste num empobrecimento de seu significado. Porém, é também um empobrecimento fazê-las se referirem a um período de mil anos anterior ao estado final. Elas devem ser interpretadas como descrições inspiradas da nova terra gloriosa, que Deus está preparando para seu povo.

(4) A Bíblia não ensina uma restauração dos judeus à sua terra no milênio. Este argumento dispensacionalista é baseado numa interpretação literal de várias passagens do Antigo Testamento. Vejamos algumas dessas passagens.
Observamos primeiramente Isaías 11.11-16. O título da New Scofield Bible, sobre esta divisão, é: “Como Cristo estabelecerá o Reino”. A nota número 1, no verso 1 deste capítulo, diz o seguinte: “Este capítulo é uma descrição profética da glória do Reino futuro que será estabelecido quando o filho de Davi voltar em glória”.
Os dispensacionalistas alegam que a palavra “tornará”, no verso 11, se refere à volta de Israel para sua terra, imediatamente antes ou no princípio da era milenar futura. O verso diz o seguinte: “Naquele dia o Senhor tornará a estender a mão para resgatar o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de Sinear, de Hamate e das terras do mar”. Se, contudo, olharmos para o verso 16 deste capítulo, ficará claro que a expressão “tornará”, no verso 11, se refere a uma segunda ocorrência, em relação à volta dos israelitas do Egito, na época do êxodo: “Haverá caminho plano para o restante do seu povo, que for deixado da Assíria, como o houve para Israel no dia em que subiu da terra do Egito”. Em outras palavras, o que Isaías está profetizando, nestes versos, é o retorno de um remanescente do povo de Deus, num futuro previsível, das terras que o tomaram cativos. A Assíria é mencionada, em primeiro lugar, pois Isaías bem pode ter escrito estas palavras depois de o Reino do Norte ter sido deportado para a Assíria, em 721 A C. Dessa forma, esta profecia teve um cumprimento literal com o retorno dos israelitas do cativeiro, no sexto século a C. .

Passemos agora para Jeremias 23.3,7,8:
“Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas, e se multiplicarão (v.3).
Portanto, eis que vêm dias, diz o Senhor, em que nunca mais dirão: Tão certo como vive o Senhor, que faz subir os filhos de Israel da terra do Egito; mas:
“Tão certo como vive o Senhor, que fez subir, que trouxe a descendência da casa de Israel da terra do Norte, e de todas as terras para onde os tinha arrojado; e habitarão na sua terra” (vv.7,8).

A nota da New Scofield Bible, sobre o verso 3, diz o seguinte: “Esta restauração final será levada a efeito após um período de incomparável tribulação (Jr 30.3-10), e em conexão com a manifestação do Renovo justo de Davi (v.5)... Não se deve confundir esta restauração com o retorno de um remanescente de Judá sob Esdras, Neemias e Zorobabel, ao final do cativeiro de setenta anos” (Jr 29.10). Mas, eu pergunto, por que não se pode entender esta profecia como tendo sido cumprida pelo retorno dos israelitas dispersados no sexto século a C.? Não é verdade que Jeremias proferiu estas palavras imediatamente antes da deportação do Reino de Judá para a Babilônia? Este contraste entre o retorno do Egito e o retorno “da terra do Norte”, mencionado nos versos 7 e 8, não é de fato semelhante ao contraste traçado por Isaías 11.16? O fato de o próprio jeremias mencionar especificamente o retorno do cativeiro babilônico, num capítulo posterior, reafirma o argumento de que é este o retorno que ele prediz no capítulo 23: “Assim diz o Senhor: Logo que se cumprirem para Babilônia setenta anos atentarei para vós outros e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos pra este lugar” (Jr 29.10).

Uma outra passagem, freqüentemente citada pelos dispensacionalistas nesse sentido, é Ezequiel 34.12,13: “Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão. Tirá-las-ei dos povos, e as congregarei dos diversos países e as introduzirei na sua terra; apascentá-las-ei nos montes de Israel, junto às correntes, e em todos os lugares habitados da terra”. Novamente, os títulos da New Scofield Bible aplicam esta profecia à restauração de Israel à sua terra durante o milênio. Uma vez que, contudo, Ezequiel profetizou aos cativos na Babilônia, não parece mais provável que a referência imediata desta profecia seja à volta do cativeiro babilônico? Podemos perfeitamente concordar com os dispensacionalistas em que a visão gloriosa encontrada no restante deste capítulo aponta para um futuro bem mais distante do que o retorno da Babilônia. Mas, haverá qualquer motivo, no capítulo, que nos possa compelir a considerar esta era gloriosa do futuro distante apenas em termos de um milênio? Não é muito mais provável que tenhamos aqui mais um retrato do futuro que aguarda todo o povo de Deus na nova terra?

Examinemos agora Ezequiel 36.24: “Tomar-vos-ei de entre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra”. Os editores da New Scofield Bible consideram igualmente que esta passagem esteja ensinando a restauração de Israel à sua terra durante o milênio. Mas observe o que é dito no verso 8 deste capítulo: “Mas vós, ó montes de Israel, vós produzireis os vossos ramos prestes a vir”. Se lermos o verso 24 à luz do verso 8, parecerá bem mais provável que Ezequiel esteja falando acerca do retorno de Israel do cativeiro, no futuro próximo, e não no futuro distante.
Zacarias 8.7,8 é mais uma passagem interpretada pela New Scofield Bible como descrevendo uma restauração milenar de Israel: “Assim diz o Senhor dos exércitos: Eis que salvarei o meu povo, tirando-o da terra do oriente e da terra do ocidente; eu os trarei e habitarão em Jerusalém; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus em verdade e em justiça”. Zacarias, provavelmente, pronunciou esta profecia entre 520 a 518 a C., após a volta dos israelitas da Babilônia, sob Zorobabel e Josué em 536 a C. Contudo, seu propósito era de persuadir, ainda, mais cativos na Babilônia para retornarem a Jerusalém. Por essa razão, a profecia encontrada nestes versos foi cumprida literalmente nos dias de Esdras, que retornou da Babilônia para Jerusalém com muitos judeus em 458 a C.

Todas as profecias examinadas até aqui acerca da restauração dos israelitas à sua terra foram cumpridas literalmente. Não há motivo, portanto, para se dizer que ainda devamos esperar um cumprimento literal destas profecias no futuro longínquo.
Mais outra passagem profética aplicada pela New Scofield Bible à restauração de Israel durante o milênio é Amós 9.14,15: “Mudarei a sorte do meu povo Israel: reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, farão pomares e lhes comerão o fruto. Plantá-los-ei na sua terra, e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados, diz o Senhor teu Deus”. O que encontramos aqui é uma profecia de que Israel, após ter sido plantado em sua terra, nunca mais seria arrancado para fora dela. Por que, então, devemos restringir o sentido destas palavras ao milênio? A passagem fala da residência de Israel na terra, que durará para sempre, não apenas por mil anos.

Os dispensacionalistas replicam que “esta recongregação de Israel e a restauração à sua própria terra serão permanentes” 21. Nesta mesma linha temos estas declarações de outro escritor dispensacionalista famoso:
“Aquilo que caracteriza a era milenar não é visto como temporário, mas como eterno”.
“As alianças de Israel garantem a terra, uma existência nacional, um Reino, um Rei e bênçãos espirituais perpetuamente àquele povo. Por essa razão tem de haver uma terra eterna na qual estas bênçãos possam ser cumpridas”.

Mas, certamente, mesmo tendo por base esta interpretação, o objetivo primeiro de Amós 9.14,15 não é o de descrever um recongregamento milenar de Israel, mas sim retratar uma residência eterna do povo de Deus em sua terra. Se alguém crer num milênio terreno, essa pessoa poderá perfeitamente ver uma referência à situação do milênio nesta passagem. Mas, novamente, temos de insistir em que esta passagem não prova uma recongregação milenar de Israel em sua terra.
Já fizemos anteriormente referência à possibilidade do cumprimento múltiplo das profecias do Antigo Testamento. Um exemplo famoso de tais profecias é encontrado em Isaías 7.14: “Portanto, o Senhor mesmo vos [a Acaz] dará sinal: eis que uma jovem (variante: virgem) conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel”. Obviamente, esta passagem foi cumprida no futuro imediato com o nascimento de uma criança por sinal ao Rei Acaz (veja todo o parágrafo vv.10-17). Porém, conforme aprendemos de Mateus 1,22, o maior cumprimento destas palavras dita a Acaz ocorreu quando Jesus nasceu da virgem Maria.

As profecias veterotestamentárias acerca da restauração de Israel também podem ter cumprimentos múltiplos. De fato, elas podem ser cumpridas de um modo tríplice: literalmente, figuradamente ou antitipicamente. Passemos a examinar alguns exemplos de cada tipo de cumprimento.
As profecias deste tipo podem ser cumpridas literalmente. Conforme acabamos de ver, todas as profecias mencionadas acerca da restauração de Israel à sua terra, foram cumpridas literalmente, seja no retorno do cativeiro babilônico sob Zorobabel e Josué (em 536 a C.), seja um retorno posterior, sob Esdras (em 458 a C.).

Entretanto, as profecias deste tipo também podem ser cumpridas figuradamente. A Bíblia fornece um exemplo claro deste tipo de cumprimento. Eu me refiro à citação de Amós 9.11,12, em Atos 15.14-18. No Concílio de Jerusalém, conforme registrado em Atos 15, primeiramente Pedro, e então Paulo e Barnabé, relataram como Deus trouxe à fé vários gentios através de seus ministérios. Tiago, que aparentemente presidia ao Concílio, passa a dizer: “Irmãos, atentai nas minhas palavra: Expôs Simão [Pedro] como Deus primeiro visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome. Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito: Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei a habitação (ou tabernáculo, KJ e ASV) caída de Davi; e, levantando-o os de suas ruínas, restaurá-los-ei. Para que os demais homens busquem o Senhor, e todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor que faz estas coisas conhecidas desde séculos” (Atos 15.13-18). Aqui Tiago está citando as palavras de Amós 9.11,12. Ao fazê-los, indica que, em sua opinião, a profecia de Amós acerca do levantar a tenda ou tabernáculo caído de Davi” (“Naquele dia levantarei o tabernáculo caído de Davi...”) estava sendo cumprida naquele momento, quando os gentios eram ganhos para a comunidade do povo de Deus. Aqui, portanto, encontramos um exemplo claro da própria Bíblia de uma interpretação figurada, não literal, de uma passagem do Antigo Testamento que trata da restauração de Israel.

A New Scofield Bible, porém, em sua nota acerca de Atos 15.13, interpreta a palavra “voltarei”, do verso 16, como se referindo à Segunda Vinda de Cristo. As palavras acerca da reconstrução da habitação ou tabernáculo caído de Davi são interpretadas como descrevendo a restauração do reino de Israel durante o milênio. O arrebatamento dos gentios, como um povo para o nome de Deus, é visto como algo que deve preceder a restauração final de Israel no milênio. É dessa forma que a New Scofield Bible aplica a citação de Amós à situação em questão.
Entretanto, existem duas dificuldades com a exegese da New Scofield Bible acerca desta passagem. A primeira: o termo original traduzido por “voltarei” (anastrepso) nunca é utilizado pelo Novo Testamento para descrever a Segunda Vinda de Cristo. As primeiras palavras do verso 16: “cumpridas estas coisas, voltarei”, são simplesmente uma versão das palavras de Amós: “naquele dia”(bayyom hahu). Amós estava se referindo a um período que para ele era futuro, não necessariamente a um evento tão distante como a Segunda Vinda. A segunda: a interpretação dispensacionalista parece um tanto artificial. Quando Tiago diz: “Conferem com isto as palavras dos profetas”, estará ele se referindo a palavras proféticas acerca de um evento ainda separado por mil anos? O que ele está dizendo é que as palavras de Amós, acerca da reconstrução do tabernáculo de Davi, estavam sendo cumpridas naquele momento, no arrebanhamento dos gentios para a comunidade do povo de Deus. Embora nos dias de Amós a condição do povo de Deus estivesse em decadência (o tabernáculo tinha caído), hoje - assim diz Tiago - o povo de Deus está novamente florescendo, uma vez que seu número está agora crescendo rapidamente. Insistir que Tiago esteja falando aqui acerca de uma futura restauração milenar no sentido literal, de Israel, é perder o objetivo de suas palavras.

Aqui, portanto, encontramos o próprio Novo Testamento interpretando, de modo não literal, uma profecia do Antigo Testamento acerca da restauração de Israel. É bem possível que aquelas outras profecias devam também ser figuradamente interpretadas. Pelo menos, não podemos insistir em que todas as profecias acerca da restauração de Israel tenham de ser interpretadas literalmente.
É também possível que as profecias acerca da restauração de Israel sejam cumpridas antitipicamente - isto é, tenham seu cumprimento último na possessão, por todo o povo de Deus, na nova terra da qual Canaã era um tipo. A Bíblia indica que a terra de Canaã realmente era um tipo de herança eterna do povo de Deus na nova terra. No capítulo quatro do livro de Hebreus, a terra de Canaã, que os israelitas adentrassem com Josué, é retratada com um tipo do descanso sabático que subsiste para o povo de Deus. Aprendemos, de Hebreus 11, que Abraão, a quem a terra de Canaã tinha sido prometida por possessão eterna, aguardava a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e edificador é Deus (v.10). esta cidade futura, portanto, terá de ser o cumprimento final da promessa feita a Abraão, de que ele possuiria eternamente a terra de Canaã. O que poderá ser esta cidade futura, senão a “cidade santa” que estará na nova terra? Aprendemos em Gálatas 3.29 que, se formos de Cristo, então somos descendência de Abraão, herdeiros de acordo com a promessa. Herdeiros do que? De todas as bênçãos que Deus prometeu a Abraão, incluindo a promessa de que a terra de Canaã seria sua possessão eterna. Esta promessa será cumprida a toda a descendência espiritual de Abraão (tanto gentios crentes quanto judeus crentes) na nova terra. Pois se é verdade, conforme vimos, que a Igreja é a contraparte neotestamentária do Israel do Antigo Testamento, então as promessas dadas a Israel terão seu cumprimento último na Igreja.

Pode-se ainda levantar a seguinte questão: Se o sentido último das profecias desta espécie é a herança da nova terra, no estado final, conjuntamente por todo o povo de Deus (tanto judeus como gentios), por que é que os profetas do Antigo Testamento falam em termos tão que fizessem sentido aos israelitas daqueles dias. Para aqueles israelitas, o termo Israel era simplesmente um modo de dizer: “o povo de Deus”. Para eles, a terra de Canaã era a terra que Deus tinha dado a seu povo por lugar de habitação e por sua possessão. Porém, o Antigo Testamento é um livro de sombras e tipos. O Novo Testamento amplia estes conceitos. Nos tempos do Novo Testamento, o povo de Deus não se constitui mais unicamente de israelitas, com pequenos acréscimos de não-israelitas, mas é expandido numa comunidade que inclui tanto gentios como judeus. Na época do Novo Testamento a terra, que deve ser herdada pelo povo de Deus, é expandida de modo a incluir todo o planeta. A título de ilustração, observe como o próprio Cristo amplia o significado do Salmo 37.11: “Mas os mansos possuirão o país. No Sermão do Monte, Cristo parafraseia esta passagem da seguinte forma: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (Mt 5.5). Observe como o país do Salmo 37 tornou-se a terra em Mateus 5.

Por esta razão, nós concordamos com os dispensacionalistas em que as profecias veterotestamentárias, acerca da restauração de Israel à sua terra, efetivamente aguardam, pelo menos em certo sentido, por um futuro glorioso. Contudo, não vemos este futuro glorioso como limitado ao milênio, mas sim como envolvendo toda a eternidade; e entendemos estes futuro como sendo boas novas não apenas para os israelitas, porém para todo o povo redimido de Deus. Entender estas profecias apenas em termos de um cumprimento literal para Israel na Palestina, durante os mil anos, é voltar atrás para um nacionalismo judaico e não entender o propósito de Deus para todo o seu povo redimido. Entretanto, entender estas profecias como indicando, para seu cumprimento último, a nova terra e seus habitantes glorificados procedentes de todas as tribos, povos e línguas, conecta estas profecias com o progresso contínuo da revelação do Novo Testamento e as faz ter um sentido mais rico para todos os crentes de hoje. Vemos nestas profecias do Antigo Testamento, portanto, antecipações inspiradas das visões gloriosas de apocalipse 21 e 22.

(5) O ensino dispensacionalista acerca da postergação do Reino não tem apoio nas Escrituras. Este ensino deve ser desafiado em pelo menos três pontos. Primeiro, não é correto dar a impressão de que todos os judeus dos dias de Jesus rejeitaram o Reino que ele lhes ofereceu. Sem dúvida, muitos desses judeus rejeitaram seu Reino, mas de forma alguma todos o fizeram. Alguns, efetivamente, creram nele e se tornaram seus discípulos. Considere, por exemplo, os doze, as diversas mulheres que o seguiram, as muitas pessoas que foram por ele curadas e dessa forma vieram a crer nele, Maria, Marta e Lázaro; Nicodemos e José de Arimatéia. Pouco depois da ascensão de Jesus, encontramos no livro de Atos um grupo de irmãos em número de cento e vinte (cap. 1.15), e Paulo registra uma manifestação do Cristo ressurrecto a mais de quinhentos irmãos de uma só vez (1 Co 15.6). por essa razão, não é verdade que Cristo postergou o Reino quando esteve sobre a terra. Ele não somente ofereceu o Reino aos judeus de sua época; ele o estabeleceu, e várias pessoas se tornaram seus seguidores. Aos fariseus Jesus disse: “Se, porém, eu expulso os demônios, pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28). A Pedro, como um representante da Igreja, Jesus disse: “Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus: o que ligares na terra, terá sido ligado no céu; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus” (Mt 16.19). Será que estas passagens nos dão a impressão de que Cristo postergou o seu Reino?

Um segundo ponto a ser criticado é este: o Reino que Cristo ofereceu aos judeus de sua época não incluía sua ascensão a um trono terreno, conforme argumentam os dispensacionalistas. Se Jesus tivesse proposto um governo sobre os judeus, a partir de um trono terreno, os seus inimigos certamente teria utilizado esta proposta no julgamento perante Pilatos, e teriam dela feito uma acusação. Com certeza, uma oferta deste tipo teria sido citada como evidência da acusação de que Jesus tinha reivindicado ser um rei sobre os judeus num sentido terreno, dessa forma teria ameaçado o governo de César (veja Lucas 23.2). Mas nunca se fez tal acusação. Pilatos disse especificamente aos que acusavam Jesus: “Que mal fez este? De fato nada achei contra ele para condená-lo à morte” (Lc.23.22). O Reino que Jesus ofereceu aos judeus, e que de fato instaurou, era primariamente uma entidade espiritual: a soberania de Deus nos corações e vidas dos homens, cujo propósito era sua redenção do pecado e dos poderes demoníacos27. Por causa disso, Jesus disse incisivamente a Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, então meus servos lutariam, a fim de que eu não fosse entregue aos judeus: mas agora o meu Reino não é daqui” (João 18.36, ASV) .
Um terceiro ponto da análise crítica é que o ensino dispensacionalista, acerca da postergação do Reino, desperta dúvidas acerca do fato de Cristo ter ido à cruz caso o Reino tivesse sido aceito pelos judeus de sua época. O problema é este: se a maioria dos judeus tivesse aceito o Reino que Cristo estava oferecendo, será que isto não teria eliminado a ida de Cristo à cruz? Podemos colocar o problema de outra forma: A razão pela qual Cristo foi à cruz à que ele foi rejeitado pela maioria de seus concidadãos. Suponhamos, porém, que ele tivesse sido aceito pela maioria dos judeus como seu rei; isso não nos leva a pensar que sua humilhante jornada até a cruz jamais teria sido feita?

Charles C. Ryrie, um escritos dispensacionalista, discute esta objeção nas páginas 161 a 168 de seu livro, Dispensationalism Today (O Dispensacionalismo Hoje). A resposta de Ryrie à objeção pode ser resumida da seguinte forma: Mesmo que os judeus da época de Jesus tivessem aceito o Reino davídico, que ele lhes oferecia, a crucificação de Cristo ainda teria sido necessária como fundamental para o estabelecimento do Reino. O problema com esta reposta, porém é o seguinte: Se a maioria dos judeus da época de Jesus tivessem aceito a Cristo e a seu Reino, como Cristo teria chegado à cruz? Conforme a narrativa do Evangelho, Cristo foi levado à cruz por causa da inimizade e ódio profundo dos judeus, especialmente de seus líderes religiosos. Se, pois, este judeus e seus líderes tivessem, em sua maioria, aceitado a cristo, de onde teria vindo a hostilidade que viria a resultar na crucificação?

Devemos apresentar mais uma consideração. A sugestão dispensacionalista de que a aceitação judaica do Reino, que Jesus lhes oferecia, poderia ter sido seguida da crucificação de Cristo, teria significa uma inversão na ordem dos eventos preditos nas Escrituras. Pois a seqüência prevista teria envolvido, para Jesus, a seguinte ordem: primeiramente a glória (governo real) e então o sofrimento (culminando na crucificação). O próprio Cristo, contudo, explicou aos discípulos de Emaús, em Lucas 24.26, que os seus sofrimentos deveriam preceder a sua glória: “Não deveria o Cristo ter de sofrer estas coisas e então entrar em sua glória?” (NIV). No mesmo sentido, vêm as seguintes palavras de 1 Pedro 1.10,11: “A respeito desta salvação, os profetas, que falaram da graça que estava por vir sobre vós, procuraram atentamente e com o maior cuidado, tentando descobrir o tempo e as circunstâncias que o Espírito de Cristo estava indicando neles, quando predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se seguiram” (NIV).

(6) O ensino dispensacionalista acerca da Igreja como um parêntesis não tem apoio nas Escrituras. Este ensino deve ser rejeitado pelo menos por três motivos. Primeiramente, não é verdade, como os dispensacionalistas gostam de dizer29, que o Antigo Testamento nunca profetiza acerca da Igreja. O Antigo Testamento afirma claramente que os gentios compartilharão das bênçãos da salvação com os judeus. Em Gênesis (12.3 e 22.18) Deus diz a Abraão que nele e em sua descendência seriam abençoadas todas as famílias ou nações da terra. No Salmo 22, geralmente considerado como um Salmo Messiânico, lemos: “Lembrar-se-ão do Senhor e a ele se converterão os confins da terra; perante eles se prostrarão todas as famílias das nações”(v.27). Isaías menciona freqüentemente o fato de que a salvação que Deus concederá a seu povo Israel, no futuro, é também dirigido aos gentios. No capítulo 49.6 se registra o que Deus diz a seu servo, aqui considerado como um indivíduo: “Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e para tornares a trazer o remanescente de Israel; eu te darei como luz para as nações (ou gentios, ASV), para seres a minha salvação até a extremidade da terra”. No sexagésimo capítulo de Isaías, Deus se dirige da seguinte forma a seu povo israelita: “Dispõe-te, resplandece; porque vem a tua luz, e a glória do Senhor nasce sobre ti. Porque eis que as trevas cobrem a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti. As nações se encaminham para a tua luz, e os reis para o resplendor que te nasceu” (vs.1-3). À luz destas passagens pode-se entender o convite universal encontrado em Isaías 45.22: “Olhai para mi, e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”. Malaquias prediz claramente a adoração ao Deus de Israel por parte dos gentios: “Mas desde o nascente do sol até ao poente é grande entre as nações (ou gentios, ASV) o meu nome; e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras; porque o meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos exércitos” (1.11). Embora possa se admitir que a forma precisa que a Igreja assumiria na época do Novo Testamento não esteja revelada no Antigo Testamento, não é correto dizer - como Ryrie o faz - que a Igreja não foi revelada em absoluto pelo Antigo Testamento.

Em segundo lugar, a Bíblia ensina uma continuidade entre o povo de Deus da época do Antigo Testamento e da época do Novo Testamento; por essa razão, não se deve considerar a igreja como um parêntesis nos propósitos de Deus. Podemos ver esta continuidade de várias formas. O termo hebraico gahal, geralmente traduzido por ekklesia pela Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica), é aplicado a Israel no Antigo Testamento31. Para mencionar somente alguns exemplos, encontramos a palavra gahal utilizada para designar a assembléia ou congregação de Israel, em Êxodo 12.6, Números 14.5, Deuteronômio 5.22, Josué 8.35, Esdras 2.64 e Joel 2.16. Uma vez que a Septuaginta era a Bíblia dos Apóstolos, o uso que estes faziam do termo grego ekklesia, o equivalente da Septuaginta para gahal, referindo-se à Igreja do Novo Testamento, indica claramente uma continuidade entre aquela Igreja e o Israel do Antigo Testamento.

Quando, mais tarde, os escritores do Novo Testamento aplicam o termo templo de Deus para designar Igreja, eles deixam implícita, de modo similar, uma continuidade entre o povo de Deus do Antigo e o do Novo Testamentos. Isto é feito, por exemplo, em 1 Coríntios 3.16,17: “Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (cp.2 Co 6.16). A mesma figura é também utilizada em Efésios 2.21,22: “no qual [Cristo] todo edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito”. Uma vez que na época do Antigo Testamento o templo era o lugar onde Deus habitava de um modo especial, o fato de denominar a Igreja do Novo Testamento, como o templo em que o Espírito de Deus faz sua residência, indica continuidade.

Quando, mais uma vez, os escritores do Novo Testamento chamam a igreja neotestamentário de Jerusalém, eles deixam implícita esta continuidade. Conforme vimos, a expressão “a Jerusalém celestial”, de Hebreus 12.22, representa um grupo de santos redimidos que inclui tanto judeus como gentios. A “nova Jerusalém”, que João vê “descendo dos céus, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo” (Ap 21.2), representa toda a Igreja redimida de Deus, incluindo santos no Novo Testamento bem como do Antigo Testamento. O fato de esta multidão redimida ser denominada Jerusalém, reforça esta continuidade básica entre o povo de Deus do Antigo Testamento e o povo de Deus do Novo Testamento.

Um terceiro ponto a ser criticado é este: o conceito da Igreja como um parêntesis, que interrompe o programa de Deus para Israel, não faz jus ao ensino das Escrituras. A idéia de uma “igreja parêntesis” implica numa espécie de dicotomia na obra redentora de Deus, como se ele tivesse um propósito separado para judeus e outro para gentios. O fato de uma tal compreensão da obra redentora de Deus não provir das Escrituras já foi demonstrado anteriormente neste capítulo.
As Escrituras ensinam claramente a centralidade da Igreja no propósito redentor de Deus. Observemos, primeiramente, o que Jesus diz acerca da igreja em Mateus 16.18,19: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e os poderes da morte (ou portas do Hades, ASV, NIV) não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus: o que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus”. Cristo ensina claramente aqui a centralidade e a permanência da Igreja; os poderes da morte nunca terão sucesso em destruí-la. Jesus também indica que a Igreja não é uma espécie de parêntesis ou interlúdio esperando seu retorno para estabelecer o Reino, mas sim que a Igreja é a agência principal do Reino, uma vez que as chaves do Reino lhe são dadas (isto é, a Pedro como representante da Igreja).

A carta de Paulo aos Efésios enfatiza, de modo particular, a centralidade da Igreja no propósito redentor de Deus. Em Efésios 1.22,23 lemos: “[Deus] para [Cristo] ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à Igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas”. A Igreja é representada aqui como algo tão importante, a ponto de Cristo, que é sua cabeça, ter sido feito por Deus cabeça sobre todas as coisas, a fim de que ele tenha soberania absoluta sobre toda a história. Também aprendemos desta passagem que a Igreja é o corpo de Cristo, constituindo sua plenitude, de modo que Cristo não é completo sem a Igreja. como pode uma Igreja descrita deste modo ser considerada como um parêntesis nos propósitos de Deus? Efésios 3.8-11 lança mais luz sobre a centralidade da Igreja no plano de Deus: “Embora eu seja menos que o menor de todo o povo de Deus, esta graça me foi dada: pregar aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo, e deixar claro a todos minha administração deste mistério, que foi mantido durante eras passadas oculto em Deus, o qual criou todas as coisas. Seu propósito era de que agora, através da igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja tornada conhecida aos governadores e autoridades nos reinos celestiais, conforme o seu propósito eterno que ele realizou em Cristo Jesus nosso Senhor” (NIV). Aprendemos, desta passagem maravilhosa, que a Igreja realmente não foi uma reflexão tardia da parte de Deus, porém é o fruto do eterno propósito de Deus (prothesis ton aionon; literalmente, “propósito das eras”) que ele executou em Cristo. Mais outra passagem significativa está no capítulo 5, versos 25-27: “Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”. Conforme esta passagem, a razão pela qual Cristo veio ao mundo era de entregar-se a si mesmo pela Igreja a fim de santificá-la e, finalmente, apresentá-la a si próprio como Igreja perfeita, sem mácula, nem ruga. Agora, como pode tal Igreja ser considerada um “parêntesis” no plano de Deus?

(7) Não há base bíblica para esperarmos que pessoas ainda serão trazidas para a salvação após Cristo ter voltado. Conforme temos visto, os dispensacionalistas ensinam que uma grande multidão de pessoas ainda será salva após Cristo retornar. Se considerarmos o arrebatamento como a primeira etapa da volta de Cristo, no pensamento dispensacionalistas, lembraremos que um remanescente de Israel (os 144.000) e uma inumerável multidão de gentios serão salvos durante a tribulação dos sete anos. Embora somente pessoas regeneradas estejam vivendo sobre a terra, no princípio do milênio, um grande número dos descendentes destas pessoas irá se converter durante o milênio. Entretanto, existem indicações claras nas Escrituras de que a Igreja (incluindo tanto crentes judeus como gentios) estará completa quando Cristo vier de novo. Sendo este o caso, não devemos esperar que as pessoas ainda serão capazes de crer em Cristo e vir à salvação após a volta de Cristo.
Considere-se primeiramente o ensino de 1 Coríntios 15.23: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois os que pertencem a Cristo (hoi tou Christou; literalmente, os de Cristo)”. Percebemos, pelo contexto prévio, que Cristo foi ressuscitado como as primícias daqueles que dormem (v.20). O termo primícias implica que todos aqueles que morreram em Cristo serão igualmente nele vivificados (v.22). No verso 23, Paulo nos fornece a ordem segundo a qual estas duas ressurreições ocorrem: primeiramente Cristo, então algum tempo mais tarde, na vinda de Cristo, aqueles que pertencem a Cristo. As palavras “aqueles que pertencem a Cristo” implicam que todos os que são de Cristo serão ressuscitados naquela oportunidade, não somente alguns deles. Estas palavras, portanto, não dão oportunidade para a ressurreição de outros cristão mais tarde.

Os dispensacionalistas afirmam que haverá mais duas ressurreições de crentes após a primeira etapa da Segunda Vinda de Cristo: a ressurreição dos santos da tribulação, incluindo os santos do Antigo Testamento, e a ressurreição dos santos que morreram durante o milênio. Alguns dispensacionalistas sustentam que “aqueles que pertencem a Cristo”, conforme mencionado em 1 Coríntios 15.23, incluem crentes que são ressuscitados após a tribulação, mesmo estes intérpretes, todavia, ainda aguardam uma ressurreição dos santos do milênio, no final dos mil anos. Mas, será que este ensino toma 1 Coríntios 15.23 literalmente? Se Paulo tivesse em mente possíveis ressurreições posteriores de crentes (ou uma ressurreição posterior possível de crentes), não deveria ter ele escrito: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; então na sua vinda alguns daqueles (ou a maioria daqueles) que pertencem a Cristo?”

Passemos agora para 1 Tessalonicenses 3.12,13: “...e o Senhor vos faça crescer, e aumentar no amor uns para com os outros e para com todos, como também nós para convosco; a fim de que sejam os vossos corações confirmados em santidade, isentos de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos (meta panton ton hagion autou)”. Os dispensacionalistas interpretam estas palavras como se referindo à segunda etapa da Segunda Vinda de Cristo , quando Cristo retornará com sua Igreja. entretanto, já foi demonstrado anteriormente34 que não se deve fazer distinção alguma entre uma vinda de Cristo para seus santos e uma vinda de Cristo com seus santos. Contudo, mesmo considerando a interpretação dispensacionalista deste verso, a passagem diz claramente que Cristo retornará com todos os seus santos, não somente com alguns deles. Como poderá isto deixar lugar para o aparecimento de outros santos que ainda não tenham nascido, e que ainda precisam se converter durante o milênio?

Já observamos anteriormente o ensino de Paulo acerca do arrebatamento dos crentes na hora da volta de Cristo, ensino encontrado em 1 Tessalonicenses 4. Veja agora o que ele diz nos versos 16 e 17: “Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor”. Todos os intérpretes, inclusive os dispensacionalistas, concordam em que esta passagem trata do arrebatamento da Igreja na hora da volta de Cristo. Contudo, merece ser observado que Paulo diz “os mortos em Cristo ressuscitarão”, não: “alguns dos mortos em Cristo”, ou: “a maioria dos mortos em Cristo”. Esta passagem parece igualmente excluir qualquer ressurreição (ões) dos mortos em Cristo depois deste momento.

Mateus 24.31 diz: “E ele [o Filho do homem cuja vinda sobre as nuvens do céu foi mencionada no verso anterior] enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus”. Os dispensacionalistas, geralmente, interpretam esta passagem como se referindo apenas ao arrebanhamento dos judeus eleitos no final do período da tribulação35. Mas, conforme vimos36, não há razão para tal limitação dos eleitos aqui. Se todos os eleitos são entendidos aqui, que lugar ainda haverá para o arrebanhamento de ainda outros eleitos após a Segunda Vinda de Cristo?.
Pedro também tem algo a dizer acerca deste problema. Em 2 Pedro 3.4, ele afirma que os escarnecedores virão nos últimos dias, dizendo: “Onde está a promessa da sua vinda?” No verso 9 Pedro responde a esta objeção com as seguintes palavras: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão todos cheguem ao arrependimento”. O Senhor retarda a sua vinda, diz Pedro, a fim de que mais pessoas possam se arrepender. A implicação evidente destas palavras é que, depois da Segunda Vinda ter ocorrido, não haverá outra oportunidade para se voltar a Deus, em arrependimento.

Considere-se finalmente o ensino da Parábola das Dez Virgens em Mateus 25.1-13. Nesta parábola Jesus está ensinando aos seus discípulos estarem sempre preparados para sua volta. A história descreve uma festa judaica de casamento, na qual dez virgens estão esperando pelo noivo a fim de poderem com ele entrar para as bodas. Enquanto o noivo se atrasa, todas as virgens adormecem. Mas, quando, finalmente, o noivo chega, as virgens sábias - que tinham levado óleo para suas lâmpadas - entram com ele para a festa do casamento. Entretanto, às virgens néscias - que não tinham levado óleo consigo - não foi permitido entrarem para as bodas porque, depois de as outras terem entrado, a porta foi fechada. Quando, mais tarde, as virgens néscias tentam ingressar para as bodas, o noivo lhes diz: “Em verdade vos digo que não vos conheço”(Mt 25.12).

A maioria dos intérpretes concorda em que as virgens desta parábola representam todos aqueles que dizem estar esperando pela volta de Cristo; em outras palavras, todos aqueles que parecem ser membros da Igreja de Cristo. Sem tentarmos explicar cada detalhe, podemos dizer que a lição óbvia da parábola é que todos os que aparentam ser cristãos, que não estiverem verdadeiramente prontos para a volta de Cristo, não desfrutarão da salvação representada pelas bodas, quando ele vier, e não terão uma oportunidade posterior para serem salvos, uma vez que, após a entrada daqueles que estavam prontos para a festa, a porta é fechada. Portanto, a parábola claramente não dá lugar para que pessoas sejam salvas após a volta de Cristo.

Uma interpretação dispensacionalista comum desta parábola é considerar que as virgens representam os santos da tribulação, especificamente os israelitas. Israel está esperando para o fim do período da tribulação a volta do noivo e da noiva (indicando Cristo e sua Igreja). Conforme J. Dwight Pentecost: “A ceia do casamento, então, torna-se a figura da parábola para toda a era milenar, à qual Israel será convidado durante o período da tribulação, cujo convite muitos rejeitarão e serão assim lançados fora, e muitos aceitarão e serão nela recebidos”. Esta interpretação é certamente questionável; por que deveríamos limitar aqueles que esperam pelo noivo na parábola de Jesus aos israelitas? Porém, mesmo tomando esta interpretação, a parábola ainda milita contra a posição dispensacionalista. Pois, na parábola, a porta foi fechada, após as virgens que estavam prontas terem entrado para as bodas, não deixando oportunidade para que outros entrem depois. Mesmo assim os dispensacionalistas ensinam que, inclusive após esta hora (o princípio do milênio), outras pessoas serão capazes de entrar no gozo da festa do casamento - isto é, aqueles que ainda deverão nascer durante o milênio, e que ainda se converterão. Em outras palavras, para os dispensacionalistas a porta não foi realmente fechada.

(8) O milênio dos dispensacionalistas não é o milênio descrito em Apocalipse 20.4-6. Algumas das principais dificuldades com a doutrina de um Reino milenar terreno, após a volta de Cristo, já foram mencionadas anteriormente, quando tratávamos da discussão do premilenismo histórico. Aqui levantaremos algumas objeções adicionais, que são dirigidas especialmente contra a visão dispensacionalista do milênio.
Devemos observar, primeiramente, que a dificuldade anteriormente mencionada, de que Apocalipse 20.4-6 não diz coisa alguma acerca dos crentes que não morreram, porém estão ainda vivos quando Cristo retornar41, tem peso ainda maior contra o premilenismo dispensacionalista do que tinha premilenismo histórico. Eu citei, no Capítulo 14, a declaração de Charles Ryrie de que o propósito terreno de Israel será cumprido pelos judeus durante o milênio, ao viverem eles sobre a terra com corpos não ressuscitados42. No mesmo sentido vem a seguinte declaração de J.Dwight Pentecost:

“A conclusão para esta questão seria a de que o Antigo Testamento exibe uma esperança nacional, que será completamente realizada na era milenar. A esperança do crente individual do Antigo Testamento por uma cidade eterna será realizada na ressurreição na Jerusalém celestial, onde, sem perder a distinção nem a identidade, Israel ser juntará com os ressuscitados e com os transladados da era da igreja para compartilhar da glória de seu Reino para sempre. A natureza do milênio, como período de teste da humanidade decaída sob o justo reinado do rei, impede a participação de indivíduos ressurrectos naquele teste. Desta forma, a era milenar dirá respeito apenas a homens que foram salvos, mas que estarão vivendo em seus corpos naturais”.

Ambos estes escritores, representando o ponto de vista dispensacionalista, dizem que a era milenar dirá respeito apenas a pessoas que ainda estiverem vivendo em seus corpos naturais. Além disso, de acordo com a posição dispensacionalista, os santos ressurrectos desempenharão apenas um papel incidental no mil6enio. Eles participarão com Cristo em certos julgamentos, e descerão da nova Jerusalém (que durante o milênio estará pairando nos ares sobre a terra) para a terra a fim de participar destes julgamentos. Estas atividades julgadoras, porém, serão limitadas a poucas funções específicas, uma vez que, “a atividade principal dos santos ressurrectos será na cidade nova e celestial”.

Todavia, ao lermos Apocalipse 20 do modo que os dispensacionalistas querem, não encontramos na passagem nenhum referência quer a pessoas que ainda vivem na hora em que o milênio começa, quer a pessoas com “corpos não ressuscitados”. As palavras “e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos” (v.4) devem ser entendidas, dizem os dispensacionalistas, como indicando que aqueles que aqui descritos foram ressuscitados dentre os mortos numa ressurreição física45. Nenhum outro significado da palavra viveram (ezesan) é possível, assim dizem os dispensacionalistas. De acordo com esta interpretação de Apocalipse 20.4, portanto, são os santos ressurrectos, e somente os santos ressurrectos, que são aqui mencionados como reinando com Cristo durante mil anos. Mas, conforme vimos, os dispensacionalistas ensinam que os santos ressurrectos desempenharão apenas uma papel limitado no milênio, pois sua atividade principal será na nova e celestial Jerusalém que paira no ar, sobre a terra, durante o milênio. Os dispensacionalistas também ensinam que a era milenar dirá respeito às pessoas não ressuscitadas, pessoas que ainda estiverem vivendo em seus corpos naturais. Mas esta passagem não diz uma palavra seque acerca de tais pessoas! Concluímos que Apocalipse 20.4-6 não descreve o milênio dos dispensacionalistas, ainda que seja interpretado conforme os dispensacionalistas desejam que o interpretemos. Em outras palavras, a compreensão dispensacionalista do milênio não está baseada em uma interpretação literal desta passagem mais importante.

Temos agora de mencionar uma segunda objeção. Conforme o ensino dispensacionalista, o propósito do Reino terreno milenar de Cristo é o de cumprir as promessas que até agora não foram cumpridas a Israel, ou seja, restaurar os israelitas à sua terra como uma nação, e naquela terra dar aos israelitas um lugar de exaltação acima dos não-israelitas. Em outras palavras, o propósito do milênio é desenvolver o reinado terreno que foi prometido a Davi, no qual Cristo, descendente de Davi, governará desde um trono terreno em Jerusalém, sobre uma nação israelita convertida.
Se este deve ser o propósito do milênio, não é extremamente estranho que Apocalipse 20.4-6 não mencione nenhuma palavra acerca dos judeus, da nação de Israel, da terra da Palestina, ou de Jerusalém? Isto não seria tão sério se a idéia da restauração de Israel fosse apenas um aspecto incidental do milênio. Mas, conforme o ensino dispensacionalista, a restauração de Israel é o propósito central do milênio! Portanto é de suma importância que nada deste legado propósito central esteja mencionado na única passagem bíblica que trata diretamente do Reino milenar de Cristo: Apocalipse 20.4-6.

Concluímos que o premilenismo dispensacionalistas tem de ser rejeitado, como um sistema de interpretação bíblica que não está em harmonia com as Escrituras.