A BÍBLIA E A REVELAÇÃO NATURAL


O relacionar a bíblia com seus contextos equivalem relacioná-la com a revelação natural. A revelação natural é a revelação de Deus em tudo o que Ele tem criado (Sl 19.1; Rm 1.18), incluindo o ser humano, que foi criado à sua imagem (Gn 1.27; 9.6). A revelação de Deus está perto de todos os homens (Rm 1.21).
A revelação natural revela o “eterno poder e a deidade” de Deus (Rm 1.20). Revela suas normas éticas (Rm 1.32). Infelizmente depois da queda de Adão houve a necessidade de uma comunicação especial de Deus ao homem. Era uma necessidade de o homem ter uma promessa salvífica, a qual nunca poderia deduzí-la por si só da revelação natural. A outra necessidade era corrigir toda interpretação pecaminosa da revelação natural. Romanos 1.21-32 explicam como as pessoas manejam a revelação natural quando não existe outra Palavra de Deus. Por esse motivo Deus nos tem dado a bíblia, “a revelação especial”, tanto para suplementar a revelação natural (acrescentando a mensagem da salvação), como para corrigir o mau uso que o homem fazia da revelação natural. Como disse Calvino, o Cristão deve olhar a natureza como os “anteolhos das Escrituras”. Se Adão antes do pecado recebia uma comunicação verbal de Deus para que pudesse interpretar o mundo, imagine o quanto depois do pecado essa necessidade tornou-se mais premente.

O assunto não é que as Escrituras pudessem ser mais divina ou ter maior autoridade que a revelação natural. A diferença está em que as Escrituras são uma comunicação verbal divina que Deus deu ao homem com o fim de suplementar e corrigir nossa interpretação do mundo. Devemos aceitar com toda humildade esta ajuda. Ao fazê-lo, não por dizer que as Escrituras sejam de maior autoridade que a revelação natural, mas que as Escrituras corrigem nossas interpretações da revelação natural. Para permitir que as Escrituras exerçam a dita influência corretiva, teremos que aceitar o princípio de que a nossa fé convencida sobre o ensinamento bíblico, tem prioridade sobre o que podemos aprender somente da natureza. Deus nos deu as Escrituras como constituição do pacto para o seu povo, e assim tem que servir como tal, teremos que dar-lhe prioridade sobre toda outra fonte de saber.

É um erro, por exemplo, sugerir (como muitos fazem) que leiamos juntos, lado a lado, os dois “os livros da natureza” e os “das Escrituras”, ambos com igual peso em todos os sentidos. Este tipo de argumento tem sido utilizado para justificar de forma cristã, porém sem muito sentido crítico, a aceitação da teoria da evolução, da psicologia secular, e outras mais. Este tipo de argumentação não permite que as Escrituras façam seu trabalho de correção, e proteção do povo de Deus da “sabedoria do mundo” (Ver. 1 Cor 2.6-16). Contudo, a revelação natural lida corretamente através dos “espelhos das Escrituras”, é de tremendo valor cristão, e especialmente para o apologeta cristão.

Quando olhamos a natureza com a ajuda de Deus, entendemos que os céus em verdade “proclamam a glória de Deus”(Sl 19.1). Vemos de várias maneiras interessantes como o homem reflete a imagem de Deus. Vemos como Deus dá ao mundo e à mente humana uma estrutura racional, afim de que possam adaptar-se uma na outra. Vemos através da história e das artes, quanto mal resulta do homem abandonar a Deus, e quantas bênçãos recebem quando são fiéis a Ele. Os apologetas tradicionais nem sempre compreendem que a natureza é revelação de Deus. Aquino por exemplo não faz distinção entre revelação natural e a especial, mas fez entre o argumentar com a ajuda da revelação e o argumentar sem a sua ajuda.

Enfim precisamos deixar claro que o uso de evidência fora da bíblia, e aqui a revelação natural tem o seu destaque, pode ser tida como um bom uso da própria bíblia. O olhar a criação à luz das Escrituras, e o aplicar a Escritura à criação, são uma e a mesma atividade, visto de perspectivas diferentes.