ARGUMENTO AD HOMINEM


É provável caro leitor que você já tenha se visto naquela situação em que, apresentando uma idéia a alguém, tenha sido por essa pessoa rechaçada, sem que a sua idéia pudesse ser desenvolvida como deveria. E a razão do rechaço é o fato de que o seu interlocutor em vez de ouvir seus argumentos para então depois questioná-lo, viu primeiro algo no seu caráter ou outra coisa que o valha como pretexto para desqualificar ou ignorar o que você diz.Esse tipo de comportamento, embora ridículo, é muito comum em nossa sociedade e é conhecido em filosofia, como argumento ad hominem, ou seja, atacar uma pessoa em vez dos argumentos que ela expõe.
Esse tipo de postura está presente em pessoas que até mesmo qualificamos como crentes. E vitimou até mesmo o exímio doutrinador da igreja, o apóstolo Paulo.

É comum entre a maioria dos teólogos, a opinião de que Paulo quando escreveu a sua segunda epístola aos Coríntios não teve outro propósito senão defender a sua dignidade e autoridade apostólica. O que ele fez com muita propriedade e pode ser conferido em textos como:
(II Cor 1.1; 10.1-; 11.1-; 12.1-; 13.1-).

Não há dúvida de que o objetivo de Paulo ao escrever a 2ª carta aos Coríntios foi de fato fazer a defesa de sua autoridade apostólica, o que pode ser inferido da leitura dos textos acima. Basta agora sabermos o porquê Paulo precisou fazer a defesa de sua dignidade e autoridade apostólica em uma igreja fundada por ele mesmo. Corinto não seria o único lugar do mundo onde Paulo jamais precisaria se justificar por coisa alguma? A razão é muito simples: nessa cidade ele exerceu um ministério muito profícuo. Paulo não precisaria se justificar com os coríntios, nem com qualquer outra igreja que trabalhou, uma vez que ele era consciente de que sua missão era exercida da melhor maneira possível.

O fato aqui foi que o passado de Paulo depunha contra o seu presente de apóstolo e doutor da igreja. Alguns dentre os coríntios passaram a questionar a autoridade apostólica de Paulo por três motivos que por inferência descobrimos lendo 2º aos Coríntios.

1) O primeiro motivo residia no fato de Paulo não fazer parte da escola apostólica de Jerusalém e não haver sido recebido nesse colégio por nenhum outro apóstolo de nome. Ele mesmo afirmava: “Apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus” (II Cor 1.1).

2) O segundo motivo reside no fato de que Paulo agora como um cristão se opunha a muitas verdades do judaísmo que outrora defendia e ensinava. Aqui ele estava sendo acusado de ser um traidor. Isso era possível em razão do fato de que a ruptura do cristianismo com o judaísmo se dava muito lentamente. Os judeus convertido à fé, não haviam entendido ainda a plena suficiência de Cristo e do ministério da graça (II Cor 3.1-11).

3) O terceiro motivo era que a autoridade na igreja de Corinto estava sendo disputada por outros “apóstolos”. Embora Paulo mesmo tenha declarado que superou a todos quanto ao trabalho e a sua missão. O maior pecador se tornou o maior dos apóstolos (II Cor.11.1; 12.1-).

Os “apóstolos” que disputavam a posição de liderança em Corinto com certeza não eram nem Apolo nem muito menos Pedro, uma vez que Paulo os chama de falsos apóstolos e obreiros fraudulentos (II Cor 11.13). O que nos parece é que esses falsos líderes eram pessoas sem escrúpulos que se infiltraram entre os crentes em Corinto com o objetivo de obterem benefícios pessoais. Se os coríntios julgassem a mensagem de Paulo e não estabelecessem critérios que fossem além da sua mensagem, com certeza não cairiam na presa desses falsos mestres.

Termino esse texto chamando a sua atenção, caro leitor para o fato de não ser sensato julgarmos uma idéia ou um discurso de alguém por qualquer outro critério senão aquele pelo qual prove a coerência ou a incoerência do dito argumento. Embora no cristianismo seja válido o axioma: “minha fala tem que andar com meus passos”. Isto é, discurso e vida não se separam. Entretanto, continua válida e indiscutível a admoestação do nosso Senhor: “não julgueis” (Mt. 7.1). A razão dessa admoestação é clara: o julgamento só é imparcial e justo quando exercido pelo próprio Deus, pois só Ele pode ir além dos fatos e considerar a coisa em si mesma.